Arqueólogos vão desenterrar objetos do Infante D. Henrique

A intervenção incide sobre o setor poente do castelo, que poderá corresponder à alcaidaria do Infante D. Henrique. A relação do infante com Silves é muito forte, já que a cidade recebeu-o como alcaide-mor, em 1457, antes de este ter-se mudado para Lagos e Sagres
Escavações arqueológicas no Castelo de Silves

O homem que desvendou os mistérios do oceano e mudou o curso da história, há 550 anos, foi alcaide-mor de Silves, onde viveu durante vários anos. Mais de cinco séculos depois, escavações arqueológicas no castelo da cidade poderão pôr a descoberto toda a casa do Infante D. Henrique, assim como os objetos que usava no seu dia-a-dia

 

No início de 2006, uma equipa de arqueólogos liderada por Rosa Varela Gomes, da Universidade Nova de Lisboa, colocou a descoberto a repartição onde residia o alcaide (alcaidaria), no castelo de Silves. Estes vestígios foram encontrados durante trabalhos no interior do castelo, no âmbito da intervenção do programa Polis, mas a falta de financiamento ditou o adiamento de novas escavações.

Logo na altura, os responsáveis pelos trabalhos arqueológicos acreditaram ter descoberto naquele local vestígios da casa onde viveu o Infante D. Henrique, reconhecido mundialmente como o primeiro grande impulsionador das viagens de exploração marítima.

Apesar de ainda ser uma questão pouco estudada, a relação do infante com Silves é muito forte, já que a cidade recebeu-o como alcaide-mor, em 1457, antes de este ter-se mudado para Lagos e depois para Sagres.

As primeiras escavações revelaram um salão, uma escadaria e um lagar do tempo cristão, ou seja, diferentes da ocupação islâmica. Também foram descobertas diversas peças de cerâmica, moedas e fivelas dos séculos XIV e XV. E tudo isto foi descoberto apenas numa pequena área do castelo.

A arqueóloga Rosa Varela Gomes regressou esta semana ao mesmo local para prosseguir as escavações. A nova campanha, que se prolongará até 1 de agosto, vai incidir no setor poente do castelo para “alcançar um maior conhecimento do espaço” que, segundo a investigadora, “poderá corresponder à alcaidaria do Infante D. Henrique”.

Em busca dos objetos usados pelo infante

“A intervenção irá incidir neste setor, para permitir conhecer a dimensão do espaço, assim como os artefactos ali utilizados no quotidiano, pelos seus ocupantes, ao longo dos séculos XIV-XVI”, adiantam os responsáveis pelos trabalhos arqueológicos, que arrancaram na última segunda-feira. Para além de Rosa Varela Gomes, a equipa é constituída pelo arqueólogo Mário Varela Gomes e mais dez estudantes do curso de arqueologia da Universidade Nova de Lisboa, contando ainda com o apoio do município.

O Infante D. Henrique (1394-1460) ficou conhecido na história mundial como o homem que desvendou os mistérios do oceano. Com extraordinária obstinação, o infante foi o mentor da expansão ultramarina que, mais tarde, desencadeou os descobrimentos.

Na expressão de Camões, o Infante D. Henrique deu “novos mundos ao mundo” e é considerado o verdadeiro iniciador da expansão universal de Portugal e da Europa.

O infante e o início da expansão portuguesa

Nascido no Porto em 3 de março de 1394, o infante foi o quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Em 1414 convenceu o pai a organizar a expedição a Ceuta, que foi conquistada em 1415, marcando o início da expansão portuguesa.

Mais tarde, os navios ao seu serviço chegaram pela primeira vez à Madeira, em 1419, e aos Açores, em 1427, ilhas que foram povoadas por ordem do infante. Mas este homem empreendedor e de espírito voluntarioso queria ir mais além. O reconhecimento da costa ocidental africana era um dos seus objetivos. A passagem do cabo Bojador por Gil Eanes em 1434 foi um grande êxito e terminou com os medos ancestrais relacionados com aquelas paragens longínquas.

Depois de uma tentativa falhada para conquistar Tânger, em 1437, e que terminou de forma trágica com a morte do seu irmão, o Infante D. Fernando retoma as viagens de exploração em 1441, com Dinis Dias a chegar ao rio Senegal e a dobrar o cabo Verde três anos depois. A Guiné é ainda visitada no seu tempo. Até ao ano da morte do Infante D. Henrique, em 1460, a costa africana foi reconhecida até à Serra Leoa. O avanço nas explorações foi acompanhado pela criação de feitorias, através das quais se trocavam produtos europeus por ouro, escravos, malagueta, algodão e marfim.

Apesar de só ter sulcado as ondas do oceano para as suas expedições de conquista em Marrocos, ficou conhecido como “o Navegador”. Um cognome bastante merecido, pois é a ele que se deve o primeiro impulso e grande incitamento das navegações posteriores.

Segundo a lenda, o Infante D. Henrique fundou, como governador do Algarve, a mítica “Escola de Sagres”, com relevante importância, mas que nunca existiu no sentido físico. Ainda assim, é na região algarvia que nasce a caravela dos descobrimentos e alguns dos instrumentos de orientação em alto-mar, que depois foram usados com sucesso. Para isso, o infante reuniu à sua volta os melhores cérebros internacionais no campo da ciência.

Até 1400, o Atlântico era um oceano virgem de navegação. Um deserto de água e a barreira que faltava ultrapassar. Foi o Infante D. Henrique quem incentivou a aventura e a descoberta. E pode ser que as escavações que agora recomeçaram no castelo de Silves nos mostrem alguns objetos e testemunhos desses tempos áureos…!

 

NOTA – ÚLTIMA HORA: Esta sexta-feira à tarde, a autarquia informou que a campanha arqueológica no castelo de Silves foi suspensa, “por motivos de força maior, relacionados com a responsável pelo decurso dos trabalhos” , que seriam coordenados pela professora Rosa Varela Gomes, da Universidade Nova de Lisboa. A Câmara de Silves adianta que dará conta da nova data para início da campanha assim que a mesma for definida.

 

 

Nuno Couto/JA

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