“Governos têm uma ideia fraca, superficial e oportunista do turismo”

Vítor Neto considera que o Algarve não tem “turismo a mais”. “O que o Algarve tem é outros setores a menos”, sublinha

Por onde passa o futuro do turismo algarvio, que já se confunde com a própria história e sobrevivência da região? Vítor Neto, um dos maiores especialistas portugueses nesta matéria, aponta alguns dos erros cometidos e pontos fracos do setor, caracteriza a situação atual do turismo e sugere alguns caminhos a seguir. Para o empresário algarvio, que foi secretário de Estado do Turismo no governo de António Guterres, a região está hoje num crucial momento de viragem. Até agora, Vítor Neto diz que o Algarve estava preparado para acolher o crescimento. E daqui para a frente, como será…!?

 

NUNO COUTO

 

Jornal do Algarve – Há cerca de um mês, num discurso que fez na Universidade do Algarve, falou da necessidade de “pensar o Algarve”. O que é que isto significa?
Vítor Neto – Quer dizer que os algarvios não conhecem a sua região, não sabem o que ela é hoje, nem se conhecem entre si, nem pensam em conjunto no seu futuro. E que “pensar o Algarve” é fundamental, imprescindível, para definir e aplicar uma estratégia de futuro.

J.A. – Há anos que vem repetindo que o turismo algarvio dá um excecional contributo para a economia nacional, mas que os governos não dão a devida importância a essa ‘galinha dos ovos de ouro’…?
V.N. – … E fá-lo-ei até ter forças! O turismo é um dos setores mais importantes da economia nacional em termos de VAB, de PIB e de exportações e o Algarve contribui, na minha opinião, para 40 a 50% desses valores. Os governos têm em geral uma ideia fraca, superficial e oportunista do turismo: estão condicionados pela importância das exportações de bens (pelo peso dos lóbis) e estão sobretudo interessados no contributo para os números das exportações. Já ouvi membros do governo dizer, envergonhados, que o turismo deu um contributo positivo, mas que isso deveu-se não ao ‘sol e mar’ (Algarve), mas sobretudo a Lisboa e Porto. Sim, ouvi! Não, o turismo não pode ser visto como “galinha dos ovos de ouro”, isso é uma forma de o desvalorizar e devemos combater essa designação: o turismo é uma atividade económica relevante – a terceira mais importante na economia mundial (10% do PIB) – está fortemente organizada no Algarve e nalgumas zonas do país e é estruturante para o futuro da economia de Portugal. Quem disser o contrário é desconhecedor da matéria.

J.A. – O Vítor Neto foi o secretário de Estado do Turismo entre novembro de 1997 e abril de 2002. O que esteve na base do sucesso do turismo nesses anos?
V.N. – De facto, Portugal cresceu dois milhões de turistas estrangeiros. Isso deveu-se também aqui a vários fatores que não dependeram de mim: uma conjuntura económica dos mercados emissores favorável; uma fase de crescimento do turismo em Portugal que já vinha de anos anteriores e, claro, fator decisivo, a realização da Expo 98, que foi um grande sucesso, com um crescimento de um milhão de turistas estrangeiros nesse ano. O que permitiu fazer opções estratégicas claras para consolidar e fazer crescer esses resultados.

J.A. – O que fez, que estratégia utilizou?
V.N. – Defini como prioridade – numa aposta muito forte em termos de ação e promoção – a consolidação dos mercados onde tínhamos crescido em 1998 (Alemanha, etc.), aproveitando o grande reforço de imagem gerado pela Expo. E o objetivo foi alcançado: crescemos mais um milhão de turistas estrangeiros nos dois anos seguintes. Entrei no governo em 1997 com 10 milhões de turistas estrangeiros em Portugal, saí em 2002 com 12 milhões.

J.A. – E porque está a correr tudo bem outra vez?
V.N. – Porque temos uma boa oferta, temos diversidade, temos qualidade. Temos uma boa imagem como país. São fatores objetivos determinantes. Mas – e é bom não esquecer – estamos também a beneficiar de uma conjuntura favorável. Pela minha experiência como empresário, sei que isto não é eterno.

J.A. – Mas após um longo período de estagnação (2003-2014), o turismo algarvio volta a bater recordes. O que foi feito para atingir estes números?
V.N. – Sim, os números são bons, depois de vários anos de quebra. Mas antes de referir as causas, gostava de assinalar que não se chegou a fazer uma verdadeira análise do que se passou entre 2003/4 e 2013/14, em que, no Algarve, não só estagnamos, como chegamos mesmo a cair e até perdemos 1,5 milhões de dormidas de ingleses. A razão do silêncio é simples: há quem, por razões diferentes, está interessado em que não se faça. Até parece que não houve governos, ministros, secretários de estado … nem políticas de turismo nestes anos. Que não houve Top Ten’s e Go Deeper’s, Floridas da Europa, Ryder Cup’s, Pin’s e Pent´s, West Coast´s e, claro, Allgarve´s. O Algarve, tendo em conta o peso do setor imobiliário ligado ao turismo e com as suas vertentes financeiras, acabaria por pagar um preço elevado. Pesou na nossa crise e é uma herança que não devemos esquecer. Para não voltar a repetir os erros.

J.A. – A que se deve, então, o sucesso recente do turismo na região?
V.N. – Os números de 2016 e de 2017 são bons, muito bons mesmo, e devem-se a vários fatores. O Algarve ultrapassou no ano passado os 15 milhões de dormidas de estrangeiros e os 4 milhões de dormidas de portugueses, reforçando, com 19 milhões, a sua posição de primeiro destino turístico de Portugal. Mais 4 milhões de dormidas de estrangeiros que Lisboa! Mas atenção: no turismo, ao contrário do que alguns pensam, nada acontece por acaso. Não se passa de ‘maus’ a ‘bons’, da ‘crise’ ao ‘sucesso’, de um dia para o outro, por sorte, ou porque se está na moda e se ganham uns prémios. Ou por políticas conjunturais deste ou daquele governo…

J.A – Então, o que aconteceu?
V.N. – Há aqui um dado que muitas vezes é esquecido: o Algarve, em termos de oferta (alojamento, restauração, produtos turísticos, etc.), estava preparado para acolher o crescimento. Não é um pormenor…! Por outro lado, considero que a nossa recente recuperação se deve em larga medida à superação da crise económica que entre 2008 e 2010 tocou a economia europeia (e não só) e afetou todo o turismo europeu, no quadro de quebra a nível mundial. A que devemos acrescentar, também, a grave crise económica e financeira em Portugal, que afetou o mercado interno, impedindo o seu crescimento. A nossa recuperação também não é isolada, conjuga-se com uma evolução global positiva do turismo à escala mundial e europeia. É evidente que os principais players do turismo internacional tiveram um papel determinante, cavalgando a evolução favorável da conjuntura económica. Refiro-me aos grandes operadores, às companhias aéreas low cost e não só, e à crescente agressividade das grandes plataformas informáticas. Além disso, é evidente que a crise de mercados concorrentes e a incerteza e insegurança, em mercados do Mediterrâneo, beneficiaram todos os mercados europeus e também Portugal e o Algarve.

J.A. – Mas esses problemas graves de instabilidade em destinos turísticos tradicionais como a Tunísia, Egito e Turquia, que têm desviado parte dos típicos turistas desses destinos para o nosso mercado, não terá efeitos temporários…?
V.N. – Pode ser, sem dúvida, temporário. Devemos pensar que isso poderá acontecer. Por isso, temos de construir uma proposta turística consistente, respondente às procuras de mercado, com qualidade e capacidade competitiva.

J.A. – O Algarve deve temer a concorrência? Porquê?
V.N. – Primeiro, porque nos próximos tempos vamos estar perante uma agressividade competitiva muito forte (de preços e ofertas) dos nossos concorrentes diretos. Segundo, porque há sinais de que a crise em mercados concorrentes do Mediterrâneo está a ser atenuada, e é bom nunca esquecer que os grandes operadores, as companhias aéreas, têm grandes interesses (investimentos, ofertas e rotas) nesses mercados. Por último, porque a agressividade das plataformas informáticas é imparável, perversa e imprevisível, e pode trazer mais surpresas. Para além dos imprevistos que podem surgir a nível internacional… Quando digo que não nos devemos deixar anestesiar com os números e os prémios – que são importantes, claro – estou a pensar nestes fatores. E na necessidade de termos que trabalhar muito.

J.A. – Ainda não houve o “brexit”… Como encara este problema?
V.N. – Com preocupação, mas não é assunto para andar a gerar alarmismos na praça pública. É uma preocupação que implica que se trabalhe todos os dias para consolidar o mercado inglês, o mais importante para o Algarve, evolua como evoluir, com Brexit ou sem Brexit. Diz-se muitas vezes que o Reino Unido é o quarto maior destino das exportações portuguesas, e é verdade. Mas omite-se sempre que o principal ‘produto’ de exportação é o turismo… e, claro, que o principal exportador é o Algarve (70% das dormidas).

J.A. – A reduzida dimensão da região pode comportar um produto de baixo preço e de consumo de massas?
V.N. – A região tem de apostar em termos de posicionamento em segmentos evoluídos, com poder de compra, que produzam valor acrescentado. Tem de crescer, mas, pela sua dimensão territorial, tem uma capacidade limitada. Não basta ser mais caro para conquistar turistas de “qualidade” que, pelo facto de o serem, evidentemente serão exigentes. É preciso ter uma qualidade real que justifique o preço. Desde logo, qualidade da região em todos os aspetos, das infraestruturas à saúde, passando pela segurança ou pela limpeza. Em todo o lado, e sempre. E, claro, qualidade dos produtos turísticos específicos que podem atrair os turistas.

J.A. – Qual é a sua opinião sobre o estado da região?
V.N. – É uma opinião positiva e, ao mesmo tempo, preocupada. Positiva, porque os resultados do turismo são bons e isso é fruto do trabalho e dos sacrifícios dos empresários, dos trabalhadores, da entidade regional de turismo, dos autarcas e dos cidadãos da região…

J.A. – E está preocupado com o quê?
V.N. – Sobretudo por duas razões. Em primeiro lugar, sendo o turismo a atividade económica mais importante da região, e sendo o Algarve o principal destino turístico de Portugal, é preocupante que outros setores económicos, ligados à terra e ao mar, continuem a ter um peso insuficiente na economia. O que é negativo também para o turismo e preocupante para o futuro da região. Por outro lado, tenho uma preocupação de ordem política: os governos não atribuem ao Algarve um espaço, um peso político correspondente à sua importância na economia nacional. O turismo é um dos principais setores económicos do país, é o maior setor exportador de Portugal e o Algarve representa cerca de 50% disso. Este facto não é reconhecido. O peso político do Algarve não é considerado. Por outro lado, preocupa-me o quadro da vida política no Algarve e a dificuldade em avançar, em conjunto, num projeto regional. Temos de alterar esta situação, envolver todos num projeto único, mas isso só é possível com uma ação forte da sociedade civil e dos cidadãos.

J.A. – Quais são os riscos que corremos agora e no futuro?
V.N. – Acho perigoso cavalgar a ideia de que o sucesso – números, prémios, reconhecimentos – é uma garantia para o futuro. Não é. Esses fatores exigem até mais trabalho! Vivemos num mundo volátil em que as perceções são efémeras e em que é fácil fazer mudar de opinião sobre destinos turísticos. Tenho uma convicção muito firme sobre duas questões: a primeira é que quando se “marcam pontos” num mercado ou segmento, importa consolidar e criar condições para crescer ainda mais; a segunda é que é um erro pensar que uma determinada situação (um mercado) já está garantida. Deve-se sempre procurar acrescentar novos mercados ou segmentos, mas é um erro esquecer o que se pensa que já está conquistado. Pode-se perder um e outro… O nosso turismo está repleto de exemplos destes. Fala-se de novos mercados com uma facilidade preocupante, que denota desconhecimento das dinâmicas objetivas dos fluxos turísticos. E gera ilusões. Os turistas não provêm de qualquer lado e não vão para qualquer lado. São ilusões políticas que se podem pagar caro.

J.A. – Quais são os principais defeitos do Algarve? O que é que nos falta ainda?
V.N. – O Algarve não se conhece. Não tem consciência coletiva dos seus problemas reais. Não tem projeto. Navega à vista. Vive cada dia. Falta-nos uma estratégia global. Falta-nos a definição de objetivos e prioridades. Falta-nos um instrumento de direção política, com poderes reais. Falta-nos liderança.

J.A. – E quais as maiores qualidades do Algarve?
V.N. – Resistência e sacrifício. Em silêncio.

J.A. – Para uma região que tem vindo ao longo das últimas décadas a perder vigor económico e a marcar passo na maioria das áreas relevantes, o sucesso turístico pode desviar as atenções desses problemas?
V.N. – O Algarve tem vigor económico. Só que tem uma economia desequilibrada: um peso muito grande do turismo e uma fraqueza dos outros setores ligados a recursos importantes da região, sobretudo aos recursos da terra e do mar. O turismo é importantíssimo. O Algarve não tem “turismo a mais”. Mas não devemos contar só com ele. O que o Algarve tem é os outros setores a menos. Se esses setores fossem mais fortes o primeiro beneficiário seria o próprio turismo, que ganharia mais consistência económica e social.

J.A. – Na sua opinião, qual o futuro do Algarve?
V.N. – É muito simples e depende só de nós: ou somos capazes de construir uma estratégia que, partindo dos recursos ricos e diversificados que temos, possa responder às exigências da região, construindo um futuro de desenvolvimento e bem-estar para os seus filhos, ou caímos num estado de estagnação e na vil tristeza da mera sobrevivência. Para a concretização dessa estratégia, seria necessário um instrumento político regional, capaz de a executar. E liderança. Não temos! Só os cidadãos livres e a sociedade civil podem conseguir este objetivo.

J.A. – Tendo o Algarve já conseguido reunir as condições básicas para o sucesso, com produto atrativo e infraestruturas de apoio de qualidade, qual é o passo que se segue para atingir a sustentabilidade?
V.N. – Criar um instrumento político de direção e gestão estratégica da região. Podia ser a região administrativa, podia ser uma região piloto, podia ser uma área metropolitana. Ou outra solução. Só que os responsáveis políticos, nacionais e locais, não dão sinais de o querer.

J.A. – O que é que o governo pode fazer para ajudar os empresários da região a manterem ou melhorarem este sucesso turístico?
V.N. – É simples: primeiro, reconhecer a importância do turismo na economia; segundo, reconhecer o contributo e o papel do Algarve nesse quadro nacional; terceiro, atribuir ao Algarve os meios e estruturas necessárias para continuar a produzir (mais) riqueza para o país; quarto, apetrechar o Algarve com os instrumentos políticos necessários à condução de uma estratégia da economia da região com o peso específico do turismo; quinto, apoiar a imprensa regional e a comunicação regional, assim como dar espaço ao Algarve num canal público de televisão.

J.A. – Porque fala da comunicação social?
V.N. – Porque todos os dias se fala em vários órgãos de comunicação social nos elevados crescimentos do turismo nas várias regiões do país. O que está certo. Curiosamente, esquecem-se quase sempre de referir que o Algarve também cresceu 2,5 milhões de dormidas de estrangeiros em 2016 e 2017, e que, em 2017, ano em que cresceu 900 mil, ultrapassou os 15 milhões, isto é quase 4 milhões mais que Lisboa! E que para alcançar os números do Algarve é necessário somar as dormidas de estrangeiros de Lisboa (11 milhões) com as do Porto (4 milhões).

J.A. – Se chegasse hoje ao Algarve pela primeira vez, qual seria a sua primeira impressão?
V.N. – Seria a do transmontano Miguel Torga que, em 1950, chegando ao Algarve, escreveu: “o Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na Pátria… sinto-me livre, aliviado e contente…”.

(ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO DE 1 DE FEVEREIRO DO JORNAL DO ALGARVE)

Nuno Couto|Jornal do Algarve

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