VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

Aproximam-se os dias claros e longos. Tem havido algumas promessas não cumpridas apesar do calendário as indicar. Bem sei que em Abril, apesar de todas as alterações atmosféricas, climáticas, haverá sempre “águas mil “. Mas a descomposição do tempo que estamos vivendo, marcado por chuvas intermitentes acompanhadas de ventos frios, faz do momento, um tempo algo não só desconexo quanto inóspito. Porque já deveríamos estar beneficiando de uma atmosfera que convidasse a sair, a saborear uma cerveja e um prato de caracóis ao fim da tarde, motivo suficiente para uma boa, quanto descontraída, conversa. Na eterna esperança de melhores dias me desconformo, numa relação difícil com a solidão, que propicia a presença inconstante de más memórias, ocupando um espaço que retira, apesar de uma primavera que não se tem assumido até ao momento, mas que apesar de tudo nos tem dado já, alguns dias largos e claros, a notificar maiores disponibilidades para usufruir de melhores momentos de vida.

Nestas incertezas a que os tempos de hoje nos tem levado, os quais nos conduzem a um clima marcado por comportamentos em que são predominantes o ódio, de classe, religioso, ou de mero egoísmo, tempos também inóspitos, que não nos pode deixar de inquietar. Clima que nos conduz para a absolvição da violência, elegendo-a como um factor normal do comportamento humano, independentemente de classe, religião ou cultura, porque também vivemos num mundo aculturado no qual os valores éticos, morais, deixaram de ser referências para o comportamento humano. A superficialidade predomina e neste contexto é também nele que se pode compreender que um clube de futebol, seja qual for, se transforme num problema de sociedade, pela importância que lhe é atribuída pela generalidade da comunicação social.

Regressando ao quotidiano a situação que se vive no Brasil não me é de todo indiferente. Trata-se do desfecho de um longo processo no qual ao ódio de classe se associou a politização da justiça para que, contra todas as regras que deveriam gerir um estado em democracia, no qual os direitos dos cidadãos devem ser defendidos, até se esclarecerem os motivos da sua condenação, no respeito pelas normas que deveriam gerir um estado de direito, tais direitos foram escandalosamente postos de parte, com total impunidade, e larguíssimo apoio da comunicação social, lá e cá, conduzindo à humilhante prisão de Lula. Porque não era por tais valores que se batiam as partes mas antes, em favor dos interesses de classe, afastar a esquerda do exercício do poder.

O PT sai deste processo, assim como o resto da esquerda brasileira, debilitada e quiçá desmoralizada. Tardará a recompor-se. Neste contexto, até pelas repercussões que tal acontecimento tem no panorama internacional, seria de extrema importância, para a recomposição massiva da resistência no interior do País, que tal momento desse razão e justificação, para a mobilização de acções de protesto e solidariedade para com o povo brasileiro, contra o golpe organizado pela extrema direita, a dos grandes interesses e da corrupção, perante a ameaça de fortes golpes na sua jovem democracia, que nesse sentido fosse possível organizar, mobilizar, em Lisboa, emblemática capital de um País, não só de partilha da língua, mas de construção de um sólido regime democrático derrotando uma ditadura de meio século, e nesse mesmo e amplo sentido a organizar uma manifestação de protesto frente à Embaixada do Brasil.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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