Morreu o Domingos, o meu amigo “Cabeludo”

Só bem tarde sob da notícia e até fiz figura de não querer dizer nada, porque de facto não sabia, quando a meio da tarde, recebi um telefone do Zé Praia, o músico do mundo, perguntando-me quem era o jornalista do Jornal do Algarve que tinha falecido em Castro Marim.

— Zé. A sério. Não sei de nada. Aliás, enviei esta manhã uma crónica para o jornal e o Fernando não me disse nada.

— Oh Neto! Eu também liguei para o Fernando, mas ele não me atendeu.
Algum tempo depois numa das janelas do facebook, vim o primeiro testemunho desta terrível brutalidade, num escrito do Luís Romão, actual Vice-Presidente da Câmara de Vila Real de Vila Real de Santo António, que acompanhado de uma foto (ele com o Domingos), escrevia:
«Penso que quando acontecem estas coisas tudo perde o sentido… fazes e farás sempre parte dos meus e guardo estórias vividas inesquecíveis. Tanta luta, tanta ofensa, tanta maldade, tanta porcaria na vida quando tudo poderia ser muito fácil e tranquilo. Meu amigo Corle! Aliás, meu grande amigo Corle!»

Foi nessa altura que senti um arrepio na espinha. Afinal o tal jornalista que o Zé Praia referenciava era o Domingos, que morria, afinal como na maior parte de todos os momentos da sua vida, ao serviço do Jornal
do Algarve.

Tenho que me socorrer do título de um livro do meu saudoso e também querido amigo, António Rosa, Olhão Fez-se a si próprio, para com toda a verdade perceber melhor o desaparecimento do amigo Domingos. Porque ele próprio também se fez a si próprio, num trabalho incansável, sem horas, por vezes teimoso, contra tudo e contra todos, mas sem nunca desistir, sem nunca deixar nada a meio.

Foi um lutador, discreto, mesmo nos momentos em que parecia ser o dono do Jornal, tanta era a confiança que lhe depositavam o Fernando e a Luísa, que abalavam por aí fora, e mesmo que tivessem que fazer trinta telefonemas, a coisa saia mesmo.

Pela vida fora e à distância de muitos quilómetros, mas ali ao lado, por força de um clik, imperativo das novas tecnologias, lá nos íamos ligando ao Domingos, mesmo em momento em que empurrávamos para sítios diferentes.

— E pá! Domingos. Porra a parte mais importante do jogo do Portimonense foi engolida…

— Oh Neto. O texto era muito grande. Chegou em cima da hora. E o Fernando é um chato. Tinha que fechar o jornal….

A última vez que nos vimos, em gargalhadas com a Lídia, perguntei pelas crianças e ele lá abriu o telemóvel, para na galeria das fotos, deixar-me ver aqueles duas belezas, que agora perderam o pai.

O Gigante. O Cabeludo, como afectivamente o tratava. O Domingos foi um dos raros profissionais da chamada imprensa regional, ela já tão débil, tão marginalizada, por aqueles, que afinal sobreviveram às suas custas. Um profissional sério, que se fez a si próprio, caminhando por vezes como se não fosse nada com ele, mas o serviço, mais «linguado» menos «linguado», mais foto, menos foto, lá aparecia.

— Mó. Domingos, só chegaste agora! Mas o Domingos nem reagia. Lá ia calmante para a sua banca de trabalho, como se não fosse nada com ele.

–Domingos. Tenho que ir para Lisboa e tenho estado aqui pendurado por tua causa.

— Já pode ir, respondia o Domingos Horas depois o Fernando sabia, que
mais uma edição do Jornal do Algarve estava mesmo a chegar para a distribuição.

Com uma forma de estar na vida muito própria, mas a viver certamente nesta altura uma estabilidade e um amadurecimento que o tempo foi moldando, e com os seus lindos meninos a crescer, o Domingos era
agora um dos profissionais mais importante do dia-a-dia do Jornal do Algarve, fazendo tudo para que o Jornal saísse com toda a dignidade e cumprindo sempre, no seu silêncio, que por vezes eram gritos de
revolta, a sua missão. A missão do Jornal do Algarve.

Perdi um amigo. Um amigo que mesmo à distância me ajudou nas minhas aventuras, até nos dias, em que reclamava com ele, nunca lhe ouvi ou percebi um gesto menos cordial, o que também me ajudava.
Se calhar devo-lhe alguns pedidos de desculpa, mas ele esteja onde estiver, saber á perceber, que eu tinha dias que era um chato, mas quando nos cruzávamos, lá nos olhávamos e nos cumprimentávamos:

— Bom dia «cabeludo» – Bom dia Neto.

O Jornal do Algarve perde um dos seus maiores servidores do tempo que passa e doa a quem doer, o Fernando e a Luísa sabem bem, que não vai ser fácil substituir o Domingos, com todos os defeitos e virtudes, sobretudo pela sua dedicação, pela sua vontade de servir, por estar perfeitamente
identificado com as rotinas do jornal e a sua filosofia editorial.

«Cabeludo». Amigo. Despeço-me com um abraço, logo agora, que tinha acabado de escrever uma crónica em que dava conta da minha lista da saudade, à qual agora te juntaste. Olha se encontrares aí em cima a
Irene, a nossa brasileira, dá-lhe um abraço.

Eu sei que ela vai ficar surpreendia com a tua chegada, como todos nós também ficá mos surpreendidos com a tua partida.
Por tudo isto, por muitas voltas que se dê e por muita formatação que aconteça, o Jornal do Algarve, já não vai ser a mesma coisa:

– Porra, Domingos, és um chato!…

Neto Gomes
Nota: O autor não escreveu o artigo ao abrigo
do novo acordo ortográfico

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