25 de Abril: Guia de marcha para “fascistas”, “corruptos” e “bufos”

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Dois textos assinados por Carlos Albino foram as manchetes das duas edições do Jornal do Algarve que se seguiram à Revolução de Abril de 1974.

No primeiro destes texto, Carlos Albino pedia “aos corruptos” para se retirarem “desta querida terra que venderam”. E denunciava, agora já sem papas na língua, como “os fascistas do Algarve” antes do 25 de Abril: “sabotaram o Inquérito ao Ensino”, “boicotaram a vida associativa, intimidando e perseguindo os jovens” e como “os governadores civis sistematicamente obedeciam dóceis aos cochichos ilegais emanados do governo fascista”.

E recordava como “proibiram tudo o que se referisse a uma crítica necessária à situação miserável em que o Algarve entretanto ia sendo lançado com a cumplicidade das direções reacionárias dos sindicatos, que denunciavam sócios à pide, das associações dominadas pela Mocidade ou essa hedionda pandilha de bufos que nesta vida só esperavam pelo bom tacho e pelo chicote para massacrarem as classes produtivas”.

Lembrando, ainda, o que foi o período antes da Revolução dos Cravos, o mesmo texto denunciava que “os patrões” faziam-se sócios da “terrível ANP [Ação Nacional Popular, partido único do antigo regime]” para “verem facilitadas as suas ‘coisas’ nas finanças, nos bancos, na Câmara…” e “chegavam a dar dinheiro a esta terrível organização em quantidades que ultrapassavam as dezenas de contos, enquanto aos pobres à saída da missa atiravam uns tostões para salvarem as almas”.

“Era a corrupção instalada no Algarve. A censura à Imprensa impedia a nós, jornalistas, revelarmos ao povo esta realidade. Impedia denunciar os que se metiam dentro dos jornais a soldo das organizações fascistas e anti-patriotas. Apregoavam em altos roncos que amavam a Pátria, mas a sua prática era o mesmo que escarrarem na cara dos nela nasciam”, concluía o autor do texto.

Desmascarar “cobardes” e “vendidos”

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Na semana seguinte, o mesmo Carlos Albino voltava a assinar o texto que faria manchete nessa edição do Jornal do Algarve e intitulado “Lutemos até ao fim pela libertação do Algarve”, onde se apelava aos emigrantes, operários, pescadores e camponeses algarvios para que “se constituam em autêntico movimento político”.

Isto porque “a escolha de uma estratégia autónoma e de uma política verdadeiramente popular, apenas pode ter sentido com a alteração profunda da situação actual em que a distribuição dos rendimentos está a tornar-se cada vez mais desigual, como resultado do ‘desenvolvimento’ do subdesenvolvimento”, defendia.

No mesmo texto, e tal como tinha acontecido na semana anterior, o autor voltava a dar uma imagem dos anos que precederam o 25 de Abril e da situação em que se encontrava a região devido aos anos de ditadura.

Carlos Albino recordava que a recente ascensão das classes médias algarvias tinha sido “amplamente proclamada como um processo social e economicamente louvável”, mas “esquecia-se as condições de trabalho nas fábricas de conserva, que iam fechando por constituírem uma ‘nódoa’ numa região predestinada pelo fascismo a paraíso de milionários”.

Advogados, conservadores de Registos Prediais, funcionários municipais e “muitos ‘aprendizes’ da arte de lucrar” também não escaparam à denúncia no referido texto e eram acusados de terem montado “ao longo da última década, um sistema de roubo de terras, elevado a atividade empresarial altamente lucrativa”.

De seguida, denunciava-se a “excelente colaboração” [nos referidos esquemas] das burguesias de Loulé, Faro, Portimão e Lagos, as quais “ampliaram através do ‘pequeno negócio’ os propósitos sordidamente apoiados de perto ou de longe pela ANP, pela PIDE e pela Igreja Católica que no Algarve sempre funcionou de modo geral como uma agência de apoio ao fascismo”.

E também se denunciava o facto da Imprensa ter estado quase totalmente controlada, não só pela censura, mas devido ao facto dos “diretores da maior parte dos jornais” serem “subsidiários de empregos oferecidos pela situação e ou então ‘dependiam’ quanto a volume de informação de individualidades perfeitamente ligadas à máquina corporativista e fascista”.

Uma situação que era preciso alterar: “É esta mentira que temos de mudar. É este sistema de corrupção que urge ser desmantelado, de acordo com o programa das Forças Armadas. É essa engrenagem de cobardes e de vendidos que urge desmascarar de acordo com a pureza de princípios anunciados ao País pelos homens que nos libertaram do jugo fascista, um dos mais terríveis deste século”, escrevia Carlos Albino, no Jornal do Algarve, poucos dias depois do Movimento das Forças Armadas ter acabado com 48 anos de ditadura.

Ao mesmo tempo, estas primeiras edições do Jornal do Algarve publicadas imediatamente a seguir à Revolução, eram preenchidas com outros textos que apelavam “à necessidade de preservar a revolução vitoriosa” e à “reconstrução urgente” do Algarve e do País. Outra notícia curiosa, publicada a 18 de maio, era a do pedido de demissão do diretor do Centro de Saúde Mental, por parte de funcionários, que o acusavam de usar “métodos que recordam as prisões fascistas” e de “manter relações amistosas com o diretor da PIDE”.

A situação tinha mudado, a censura tinha sido eliminada e a liberdade de expressão tinha acabado de ser reconquistada. Mas também era necessário “reaprender a escrever”, titulava um artigo onde o Jornal do Algarve explicava o antes e o depois do 25 de Abril na Imprensa e o futuro dos jornalistas.

Os tempos mudaram e a Revolução permitiu que o leitor passasse a estar mais informado, sem cortes dos Serviços de Censura nem proibição de textos. Mas 43 anos após o fim da ditadura, há quem defenda que a liberdade de imprensa ainda tem muito caminho por abrir.

“Nesse tempo já sabíamos as mutilações que a Censura fazia aos textos e também conhecíamos as regras com que tínhamos que estar em campo. Mas hoje, infelizmente, existem outras formas de pressão, apesar de estarmos em democracia, tão perversas como as que existiam nesses tempos”, considerou recentemente João Leal, colaborador deste jornal desde os primeiros números, em declarações publicadas na edição que celebrou o 60.º aniversário do Jornal do Algarve.

Domingos Viegas

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