25 de Abril: O fim da mordaça imposta pela Censura

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A primeira edição do Jornal do Algarve publicada, e inteiramente elaborada, depois da queda do regime, foi totalmente dedicada aos acontecimentos da madrugada de 24 para 25 de abril de 1974 e às alterações que estavam a mudar o país.

Além da publicação, na íntegra, do Programa do Movimento das Forças Armadas, explicavam-se as medidas concretas que já tinham sido tomadas: libertação de presos políticos, supressão da censura, reaparecimento dos partidos políticos, regresso de exilados e os primeiros passos para a normalização da vida académica.

“Uma revolta militar deitou por terra o governo de Marcello Caetano e o regime que dominava o País desde 1926. Uma Junta de Salvação Nacional, presidida pelo general António Spinolla dirige a nação até que assuma funções um Presidente da República escolhido entre os seus membros. Isto no início de um longo processo em que se vai tentar restituir ao País uma feição democrática de que ele andava involuntariamente arredio”, resumia o nosso Jornal para explicar a situação que se vivia naquele momento.

Mas também se recordava o estado em que estava o país: “Atraso sob vários pontos de vista, que nos fora imposto pelo regime tacanho e fascista que nos governou e que se tornava impopular à medida que os anos passavam. Marcello depois de Salazar foi apenas a continuidade do insuportável, foi o extravasar da taça, foi a própria divisão surgida no seio do sistema. Foi o princípio do fim”.

Alertava-se ainda para a necessidade de defender a “liberdade” que tinha sido conquistada há pouco dias, já que “tubarões reacionários e os seus agentes (DGS/PIDE, Legião, ANP/UN, e outros) espreitam a oportunidade de subverter as generosas manifestações para causarem incidentes e restabelecerem a desconfiança” e “as próprias aglomerações descontroladas encerram um potencial susceptível de degenerar”, lia-se naquela edição.

Mas também se apelava, noutros textos, a “servir Portugal, sem ódios nem pressas” e a uma “liberdade responsável”.

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Por seu turno, num texto emotivo, Torquato da Luz recordava José Barão, fundador do Jornal do Algarve e que tinha falecido cerca de oito anos antes (em 1974 o diretor era o seu filho, António Barão) sem ter podido assistir às mudanças que estavam a acontecer: “(…) De entre todos os telefonemas, houve um, porém, que me deixou particularmente emocionado: foi o de D. Ana Barão, viúva do saudoso fundador deste jornal, o meu querido José Barão. Queria dar-me uma palavra de amizade. Chorava – e eu, também, não contive as lágrimas. De alegria – e de raiva. É que, presente embora no meu espírito desde as primeiras horas do Movimento, se me tornou mais instante, nessa altura, a lembrança de quantos, tendo lutado toda a vida conta o fascismo implantado pelo 28 de Maio neste País, não lhe assistiram ao derrube.”

Nas duas edições seguintes, já sem a mordaça da censura, mereceram especial destaque dois textos de Carlos Albino, colaborador do Jornal do Algarve que, tal como aconteceu com outros, antes do 25 de Abril teve que se refugiar em pseudónimos para poder dizer o que lhe ia na alma (embora, apenas, nas entrelinhas), já que os textos assinados com o seu verdadeiro nome eram imediatamente eliminados quando chegavam aos Serviços de Censura.

Ironia do destino, ou talvez não, acabaria por ser ele a lançar, através do programa “Limite” da Rádio Renascença, o sinal para o arranque das Forças Armadas (a música “Grândola Vila Morena”) na noite de 24 para 25 de abril, precisamente à meia-noite, 25 minutos e 19 segundos.

Domingos Viegas

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