OPINIÃO

A época balnear e a inevitável segunda vaga da COVID-19

OPINIÃO | RUI NUNES
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A situação epidemiológica no Algarve parece encontrar-se sob controlo. O número de novos casos de COVID-19 baixou, após 10 de abril, para valores residuais, indiciando ausência de transmissão intracomunitária. Há, pois, motivo de regozijo. Em primeira linha, na perspetiva da salvaguarda da Saúde Pública; em segunda linha, na ótica da desejável recuperação da Economia regional, em particular das atividades turísticas e das que com estas mantêm fortes conexões.


Encontrando-nos no início do mês de maio, por conseguinte ainda algo afastados do início da época balnear, no decurso da qual o Turismo algarvio alcança o nível máximo do seu labor sazonal, será possível encetar um esforço de reprogramação das atividades dos agentes envolvidos (hoteleiros, agentes de viagens, operadores turísticos, de entre outros), de modo a assegurar a abertura da época turística alta em termos que possam considerar-se aceitáveis para os muitos viajantes e turistas que, não obstante as contingências decorrentes da crise de Saúde Pública, acorrerão por certo à Região.


Sendo verdade que tal influxo turístico poderá vir a representar um fator relevante para minorar os efeitos económicos devastadores da COVID-19, chamar a atenção dos agentes económicos e políticos para os riscos que o regresso a uma certa normalidade da vida económica na Região comporta não deixa de ser, a meu ver, um ato de crítica importância.


O primeiro comentário que é oportuno realizar relaciona-se com a presente situação epidemiológica no Algarve. A Região tem-se mantido relativamente intocada face à atual pandemia infeciosa. Porém, como em todas as circunstâncias da vida, haverá sempre que ter em conta ‘a outra face da moeda’. E, na atual circunstância do Algarve, ‘a outra face da moeda’ traduz-se por um nível muito baixo de Imunidade de Grupo. Se bem que seja necessário aguardar-se pelos resultados dos testes serológicos à população residente na Região, de modo a obter-se uma ideia rigorosa do nível de imunidade prevalecente, é seguro antecipar-se que este será insuficiente para afastar a ameaça de um segundo surto epidémico de contornos bem mais graves daquele que já se verificou.


O segundo comentário diz respeito à Economia da Região; em particular ao regresso de alguma atividade turística no decurso da época balnear que se avizinha. Não obstante a existência de uma expectativa de forte e generalizada retração da procura turística em todo o Mundo, resultante da quebra acentuada dos rendimentos das famílias, bem como das restrições a que se encontram sujeitas as viagens aéreas, os seus efeitos não serão espacialmente simétricos. Será lícito esperar-se que, em boa parte, a seleção do destino turístico por parte dos que ainda estarão dispostos a realizar viagens turísticas, seja determinada pelas suas perceções de segurança sanitária no destino. Deste ponto de vista, a região algarvia encontra-se posicionada de forma favorável, pois é parte integrante de um país que granjeou uma imagem internacional positiva no que concerne ao combate à COVID-19. Adicionalmente, o Algarve tem-se mantido, no contexto nacional, como uma das regiões menos atingidas pelo surto epidémico; seja em termos de incidência, seja de letalidade associadas à doença. É, pois, admissível que uma tão positiva imagem provoque um efeito de substituição dos fluxos de viagem em favor do destino-Algarve e, concomitantemente, em desfavor de destinos turísticos concorrenciais, de que são exemplos os resort espanhóis.


Por outra parte, o segmento dos residentes que tem por hábito despender os seus períodos de férias fora do território nacional, em face das atuais restrições às viagens aéreas optará, em larga medida, por realizar férias em Portugal.


Os dois efeitos suprarreferidos tenderão a reforçar-se mutuamente e a compensar, ainda que só em parte, o efeito de volume decorrente da crise de Saúde Pública, resultando em taxas de ocupação dos estabelecimentos hoteleiros que, sendo modestas, poderão traduzir-se em um nível de procura turística superior ao expectável. A confirmar-se, tal cenário constituirá um importante fator mitigante das dificuldades de tesouraria sentidas pela generalidade das empresas residentes, ou das que possuam atividades de negócio na Região.


Subsiste um problema, porém. A conjugação das duas dimensões da realidade regional: a epidemiológica e a económica; representa uma ameaça séria para o futuro próximo da Região. Na verdade, a coexistência em um mesmo espaço entre uma população autóctone com baixo nível de imunidade de grupo, e um conjunto de turistas proveniente de zonas caraterizadas por níveis de infeção elevados poderá constituir a receita ideal para uma segunda vaga epidémica sem precedente na região do Algarve. A consciencialização de tamanho risco será, pois, uma premissa essencial para a conceção e a execução de uma estratégia preventiva, com o propósito de obstar a que os piores cenários se venham a cumprir.


A coexistência da reativação da atividade turística com a manutenção dos níveis atuais de segurança sanitária na Região, apenas será exequível mediante a imposição de medidas preventivas severas; diria mesmo acima das que têm sido recomendadas pelas autoridades públicas de saúde. A particular circunstância do Algarve, a que acima se aludiu, justifica amplamente níveis de autoexigência sanitária que ultrapassem as simples recomendações indiferenciadas emanadas pela Direção-Geral de Saúde.


Alguns têm referido que sem Economia não haverá Serviço Nacional de Saúde capaz de responder às necessidades da população. É bem verdade. Porém, não é menos verdade que a primeira condição para o funcionamento eficiente da Economia é a de esta ser protagonizada por uma população saudável. No caso concreto que estamos vivendo, o primeiro requisito para a recuperação económica é o da superação da crise determinada pela emergência da COVID-19. Neste contexto, a precipitação e a impaciência constituem ameaças que poderão tornar-se tão letais quanto o próprio agente infecioso.

Rui Nunes

Professor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve

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