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A mãe de todas as crises

Entre os anos 2000 e 2010, o Algarve perdeu 2,6 milhões de dormidas nos estabelecimentos hoteleiros. No ano passado, a situação chegou ao ponto de metade dos hotéis ter ficado às moscas. Os números foram avançados ao JA pelo presidente da AHETA. Segundo Elidérico Viegas, se nada mudar, o encerramento de unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos vai agravar-se em 2011, aumentando o desemprego para valores nunca antes registados.

As descidas verificadas em 2010 até não foram muito significativas quando comparadas com o ano anterior, “mas elas revelam uma tendência preocupante” e “mostram que vamos ter de lutar bastante nos próximos anos para voltar a recuperar a competitividade”.

Em declarações ao JA, o presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, refere que todos os dados estatísticos – AHETA e INE – demonstram que a oferta turística do Algarve confronta-se com uma perda acentuada de competitividade, face à concorrência mais direta.

“O Algarve registou menos 2,6 milhões de dormidas desde 2001, com incidência nos mercados alemão e inglês”, adianta, acrescentando que o volume de receitas caiu neste período “mais de dois milhões de euros”, enquanto as vendas afundaram “3,3 milhões de euros”.

Os turistas, realça o líder da AHETA, estão a ser “desviados” para o norte de África, Caraíbas e países do sul da Europa, onde os preços são mais convidativos. “Até para Espanha estamos a perder turistas”, desabafa Elidérico Viegas, revelando que “nas Canárias, quando começaram a sentir os primeiros problemas, isentaram as taxas aeroportuárias para fomentar o turismo, tendo registado uma subida de 19 por cento logo a seguir”.

Por outro lado, lamenta Elidérico Viegas, “em Portugal, perante o mesmo cenário ou ainda pior, subiram os impostos, desde o IVA ao IRS, e ainda faltam as portagens para piorar isto tudo”.

O que mudou na última década?

Face à perda de turistas que se vem agravando nos últimos anos no turismo algarvio, o principal motor económico da região, o responsável adverte que “esta não é uma crise igual às anteriores”.

O presidente da AHETA explica que os últimos dez anos foram marcados por uma alteração profunda do “modelo de negócio”, e que custa ao Algarve mudar “um modelo que sustentou o turismo durante cerca de 50 anos”.

Elidérico Viegas refere-se concretamente à “nova caracterização da procura”, aos “novos canais de comercialização e distribuição” e à “liberalização do transporte aéreo”, que tornaram acessíveis destinos turísticos que eram muito caros para os europeus.

“O problema é que muitos organismos oficiais e públicos têm dificuldade em aceitar essas mudanças e, por isso, andamos a perder competitividade e a gastar milhões sempre nas mesmas soluções, que estão ultrapassadas”, protesta.

Por outro lado, Elidérico Viegas defende que a solução passa por atrair segmentos novos. Isto porque, adianta, “os aldeamentos e apartamentos chegaram a representar 85 por cento da oferta total do Algarve, mas hoje já não são rentáveis”.

“Os proprietários alugam agora as casas através dos jornais e internet, e isso pode potenciar a degradação dos edifícios e manchar a imagem turística da região”, alerta.

Como voltar a atrair turistas?

Para o presidente da AHETA, a chave para a recuperação do turismo algarvio está, assim, na criação de canais de comercialização e distribuição na internet, o estabelecimento de parcerias com as companhias de low-cost e fomentar o aparecimento de operadores turísticos especializados nos países de destino.

Outra das ideias da associação passa por premiar quem vende mais e melhor o destino Algarve nos mercados emissores. “São ideias para dar um novo fôlego ao turismo algarvio”, frisa Elidérico Viegas, reconhecendo que o Algarve tem a desvantagem de ser atualmente um destino caro, “mas há sempre turistas disponíveis para pagar mais pela segurança, o clima e a qualidade de vida que ainda temos na região”.

Nuno Couto/Jornal do Algarve
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