OPINIÃO

A serra. Viagem ao interior de uma saudade habitada (1)

OPINIÃO | SALVADOR SANTOS
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A cisão mediterrânica, primeiro. Embora o território tenha marcas ou se ressinta de um mediterrâneo tardio. Aqui, com mescla atlântica.


A fratura continental, também. Provocada pela rotura que a barreira montanhosa a norte, (e que se estende de uma ponta à outra da região) provoca na planície extensa e continuada do Alentejo. Entrados no Algarve, depois da terra arrepiada, o breve, lento e tranquilo desmoronar no oceano.


Subsidiária, em larga medida, destes dois constrangimentos, a região, vê, dentro de si, acontecer ainda outra realidade. A formulação de um contraste entre dois territórios física e mentalmente distintos; o litoral e a serra.


A morfologia decretou fronteiras e definiu identidades. A noção de interioridade vamos buscá-la à Geografia, sobretudo. O que nos discursos oficiais sobre o país se determina por «interior», no Algarve corresponde à «serra».


Invocá-lo vem quase sempre a pretexto das marginalidades que esse território concentra em si.


Não é assunto novo os problemas do interior serrano nem exclusivos da nossa circunstância. Lembre-se a formulação de Jorge Gaspar que construiu a feliz metáfora do Algarve como «Portugal deitado» onde, diga-se, se soma à coincidência de perfil as duas unidades geológicas (Orla Sedimentar e Maciço Antigo), a oposição entre o litoral e o interior e, também, a bipolaridade urbana Lisboa-Porto, entendida, entre nós, na correspondência Portimão-Faro.


Essa semelhança estende-se de igual forma às dinâmicas sociodemográficas e económicas do território. O nosso interior, a serra, tal como no resto do país encontra-se, quando não está ao abandono, envelhecido. Um mundo na iminência de ruir.


Hoje, esses problemas são favorecidos na sua ressonância e sublinhado pelo despovoamento de muitos sítios e pela ameaça de ficarem sem habitantes outros tantos lugares que ainda se conservam agarrados à vida por conta de meia dúzia de almas.

Conte-se o número de crianças que têm nascido por esses montes fora e a contabilidade dos vivos e dos mortos não deixará dúvidas quanto ao futuro. Coagular a regressão demográfica afigura-se como imperativo. O verbo é esse mesmo. Intencional a aproximação ao sangue. A serra esvai-se de gente como veias que se cortam.


No fundo só uma visão nostálgica nos impede de assumir como natural a relação ancestral do homem com os lugares.

Ocupação e abandono. Partimos das aldeias, e mesmo das pequenas cidades do interior, da mesma forma que abandonamos os livros já lidos.


Quando as suas ideias já não nos alimentam, as suas palavras não acrescentam conhecimento, esquecem-se. Quando a sua leitura deixou de ser uma paisagem que nos enche a alma abandonamos os livros e os seus autores. Procedemos da mesma forma com os lugares que não nos garantem subsistência. Que outra coisa é hoje, senão um lugar deserto, a obra literária de Assis Esperança?


Regresso ao escritor farense em função do título, «Pão Incerto», de 1960. Assis Esperança (1892-1975) domicilia a ação do seu romance em Alfamar, um espaço literário que corresponde, grosso modo, ao concelho de Aljezur enquanto espelho da serra algarvia. «Pão Incerto» começa com a conferência de um engenheiro agrónomo que vai à vila debater os problemas agrícolas.

Aproveitamento das terras e tudo quanto significasse aumento dos rendimentos.


Boa fecundação das sementes, técnicas para salvar os solos em degradação, aumento das exportações, «floresta contínua desde o Guadiana às costas de Alfamar: sobreiros, azinheiras, pinheiros e medronheiros, os terríveis eucaliptos desterrados ali, e para sempre».


Importava recuperar os tempos de prosperidade que os serrenhos tinham vivido no início da «Campanha do Trigo». Impedir que com cada homens válidos que partia para o estrangeiro fosse um pouco da riqueza da nação.


A serra é ali sinónimo de trabalho árduo e miséria. Maria da Graça, filha Francisco da Várzea, um pequeno proprietário, procura persuadir o seu pai a vender as terras, a ir para a Argentina, como os da banda da serra de São Brás de Alportel ou como os do concelho de Faro que saiam à farta para o Canadá. Vender tudo e abalar, nem que fosse para Lisboa. «Quadra-lhe bem estourar de fome?» Perguntava-lhe ela. Como Maria da Graça não havia raparigas solteiras que quisesse ficar por ali.


O antropólogo Manuel Viegas Guerreiro em «Uma Excursão à Serra do Algarve», de 1956, dá-nos conta da mesma preocupação.


Refletindo sobre o povoamento florestal, em equação na altura, (e que poria cobro à utilização rotineira e criminosa do solo) entendia que ninguém estava em melhor posição do que os serrenhos para avaliar os benefícios de proteger e plantar novas árvores. Apreciar o alto valor da cortiça e o preço compensador do medronho. Da parte deles não via resistência.


Quanto a si os problemas tinham raízes culturais e económicas. O fogo impiedoso dos seareiros sem escrúpulos que reduziam as sobreiras a cinzas só se poderia resolver com a criação de novas condições de vida para a população. Empregando uma parte dela nas tarefas das futuras plantações e deslocando a outra para lugares onde o seu esforço pudesse ser útil, tanto a si, como à economia da nação.


Tanto no caso de «Pão Incerto», como na observação de Viegas Guerreiro em pano de fundo está a preocupação e o esforço em acautelar a rotura nos equilíbrios ambientais, social, demográficos e económicos sedimentados historicamente. Manter as pessoas agarradas à terra. Impedir a emigração e a concentração nas cidades do litoral.


Os diagnósticos, relatórios, discussões e programas que incidem sobre a marginalidade geográfica, social e económica do interior nunca deixou de motivar reflexão, ação e crítica. Ainda que a avaliação dos resultados e das consequências pouco satisfaçam não se podem afirmar que as preocupações políticas tenham estado arredadas da sua problemática. Nunca foram incisivas, é certo, mas até que ponto poderiam ser eficazes mesmo que aplicadas com acerto e determinação? Atualmente, a agonia impossível de ignorar e a circunstância de uma nova realidade laboral que permite que um número significativo de pessoas trabalhe a partir de qualquer lado, apenas com recurso a um computador e acesso à internet vieram abrir um campo de possibilidades novo para o interior.

(continua na próxima edição)

Salvador Santos

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