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Algarve atento à crise olha de perto para os sem-abrigo

Evitar novos casos de sem-abrigo e trabalhar com os casos identificados é vital

São cerca de cem os casos identificados no Algarve de pessoas que vivem na rua, os chamados “sem-abrigo”. Os motivos são muitos, os problemas estão identificados e as carências também. O cenário foi apresentado num encontro realizado em Faro onde as forças vivas da região refletiram sobre as formas de trabalhar com estas pessoas, integrá-las na sociedade e evitar novos casos
Sofia Cavaco Silva

Nos dias que correm, e com as perspetivas de um 2011 verdadeiramente agreste para os portugueses, encontrar mecanismos que evitem o aumento de casos de sem-abrigo impõe-se. Para o coordenador nacional do Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social, Edmundo Martinho, o problema dos sem-abrigo tem de ser trabalhado de forma ampla e não apenas assistencial. A assistência é importante para colmatar problemas urgentes mas é tempo de procurar novas soluções que permitam de forma sólida tirar estas pessoas das ruas e dar-lhes condições para se integrarem na sociedade de forma plena, defendeu Edmundo Martinho na passada sexta-feira, na Biblioteca de Faro.
Vários autarcas, técnicos de ação social e responsáveis por instituições de solidariedade social do Algarve aceitaram o repto para falar sobre a realidade dos sem-abrigo.
“Sem-Abrigo: A minha casa é a rua” foi o tema deste encontro onde se tornou claro que para trabalhar esta questão é impossível contornar as políticas de combate à pobreza e exclusão social tanto ao nível autárquico quanto nacional assim como a forma como é feito e apoiado o trabalho das instituições de solidariedade social.
O edil de Vila Real de Santo António, Luís Gomes, e a vereadora da Câmara Municipal de Portimão, Isabel Guerreiro, foram os oradores convidados para falar sobre as políticas municipais de combate à pobreza.
Luís Gomes admitiu que a experiência autárquica tem sido reveladora a vários níveis. Enumerando várias medidas que a autarquia tem implementado com vista ao apoio à população carenciada, Luís Gomes considera que é vital perceber que “a saúde também está associada à pobreza”. Conhecido por projetos emblemáticos como o momento em a autarquia apoiou a deslocação de vários munícipes a Cuba para serem operados aos olhos, Luís Gomes diz que também a saúde oral é importante nesta luta que deve ser abrangente. A saúde é determinante para que as pessoas possam ter forças e condições para encontrarem novas oportunidades de trabalho e até de convívio. Considerando que a resposta do Estado a estas situações é “manifestamente lenta”, considera que as autarquias devem ter possibilidade de serem mais ativas nestas matérias. Luís Gomes defende ainda a criação de um fundo autárquico para a área da saúde. A existência de uma estratégia que promova a inclusão social relativamente às políticas sociais de habitação também foi sublinhada pelos autarcas.
O debate foi promovido pelo Centro Distrital da Segurança Social e a Associação In Loco e contou com a presença do presidente do Instituto da Segurança Social e coordenador nacional do Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social, Edmundo Martinho.

Quem são os sem-abrigo algarvios

Em 2009 foi lançado um desafio às autarquias algarvias para que identificassem os sem-abrigo que existiam na região. O trabalho revelou uma predominância de situações no concelho de Faro que registava 44 pessoas nesta situação perante cem casos registados na região.
De acordo com os dados fornecidos pelo Centro Distrital de Segurança Social do Algarve, em 2009 só existiam situações identificadas em cinco concelhos, nomeadamente, Faro, Lagoa, Loulé, Portimão e Tavira. Em cem, apenas oito dos sem-abrigo são mulheres.
Os motivos que os levaram para a rua são vários, mas a maior parte das respostas incide em causas pessoais ou a falta de trabalho e condições para pagar o alojamento que tinham anteriormente. Complicações financeiras e dívidas também estiveram na origem de alguns casos.
O álcool, as doenças mentais e as drogas estão presentes na vida de muitas destas pessoas, sendo as drogas um dos problemas com maior presença nos casos identificados. Muitos referem como principal necessidade de apoio a formação, uma ocupação e tratamentos de saúde.
Os casos não se cingem apenas a (…)

[peça publicada na íntegra na edição papel do JA de 25 de novembro de 2010 – nas bancas]
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