CULTURA

Algarvia de 79 anos leva poesia a lares de idosos de norte a sul do país

maria manuel silva
Maria Manuel Silva

Em tempo de pandemia de covid-19, quem porventura mais terá sofrido os efeitos do confinamento forçado e da própria doença foram os utentes dos lares de idosos. Além de terem sido atingidos por surtos, muitas vezes fatais, o isolamento e a distância que foi criada entre as famílias e os idosos causou um forte impacto a nível psicológico. Para abstrair de toda a situação, a algarvia Maria Manuel Silva teve a ideia de declamar poesia para os idosos dos lares de norte a sul do País, através de vídeos, que tem sido um sucesso.  

Começou como “uma coisa simples” e daí “nasceu uma coisa tão original”, diz a vilarrealense Maria Manuel Silva, de 79 anos, ao JA, acerca da sua ideia de enviar vídeos de si própria, a declamar poemas seus, para lares de idosos.  

“Quando chegou a época do Natal, vi que as pessoas nos lares estavam muito tristes. Eu notava isso através das notícias”, refere.  

Um dia, telefonou para uma amiga que está num lar próximo de Lisboa, que lhe disse que estava aborrecida, foi à estante e, ao tirar um livro ao acaso, calhou uma obra que Maria Manuel Silva publicou há alguns anos.  

Daí surgiu esta ideia, como lhe gosta de chamar, ao contrário de projeto: “Pensei que ler é uma coisa, ouvir dizer é outra, logo, declamado pela autora será diferente”.  

Nessa mesma tarde, a professora Maria Manuel gravou um vídeo a declamar um dos seus poemas e enviou para esse lar, que teve uma ótima reação.  

Com o primeiro feedback positivo, a algarvia pensou que “se as pessoas daquele lar adoraram, outros deveriam também de gostar” dos seus poemas. E deu mais um passo com a sua ideia, com vídeos de cerca de 20 minutos.  

“Isto animou um bocado as pessoas que estavam a ficar em baixo, a ver morrer os colegas e sem conseguir ver os familiares, nem sair das instituições”, acrescenta.  

Enviou vídeos a declamar os seus poemas para os lares dos professores e para instituições de todo o país como Vila Real de Santo António, Castro Marim, Lagos e até para os arquipélagos dos Açores e da Madeira.  

“Quando enviava os vídeos, as pessoas diziam sempre para enviar mais”, confessa. Antes do dia de Natal do ano passado, já tinha enviado 61 vídeos.  

Surpreendida na televisão  

Já no final de janeiro, assistiu a um programa da RTP com a Tânia Ribas de Oliveira sobre a pandemia de covid-19 nos lares de idosos e decidiu contactar a apresentadora, para obter números de telefone e e-mails de outras instituições, para continuar com a sua ideia.  

No entanto, a apresentadora pregou-lhe uma partida. Convidou Maria a entrar em direto pelo Skype no programa e foi surpreendida pelos utentes da Santa Casa de Lagos a agradecer pelos vídeos enviados.  

“Não estava à espera. Caíram-me as lágrimas e fiquei comovida”, confessa ao JA.  

A partir daí, começou a pensar em gravar mais vídeos e enviá-los para os lares “para distrair as pessoas, porque a pandemia ainda não terminou e temos pano para mangas”, refere.  

Até ao momento, já enviou vídeos seus a declamar poemas para cerca de 130 lares de todo o País. 

“Não tenho mãos a medir. Estou agora agarrada ao computador e ao telemóvel para enviar um vídeo da Páscoa”, acrescenta.  

Maria Manuel também entra em direto, por Skype, com algumas instituições de terceira idade, com idosos a fazerem-lhe perguntas. O feedback não podia ser melhor.  

As reações positivas foram, para a professora algarvia, “a melhor prenda de Natal”.  “Os provedores de algumas Santa Casas da Misericórdia até me agradecem por escrito, num gesto mais pessoal”, conta.  

Poesia por amor ao próximo  

Esta sua ideia é concretizada, diariamente, “por amor ao próximo” e não por dinheiro. É uma ideia “de fazer qualquer coisa pelos idosos”, que têm gostado muito. Outro exemplo veio de um lar do norte do País, com um idoso a confessar que até chorou enquanto ouvia os poemas de Maria.  

A poesia da antiga professora de matemática é “terra a terra”, sobre “coisas simples”, uma vez que qualquer coisa a inspira, revela.  

“Um dos poemas que escrevi inspirei-me em Vila Real de Santo António, quando encontrei uma menina na paragem do autocarro que ia para a praia, no mês de agosto. A menina, de 10 anos, ia para as Férias Ativas de Castro Marim, e tinha muita ingenuidade”. Daí, surgiu o poema “A Menina das Trancinhas”.  

Maria Manuel Silva nasceu em Vila Real de Santo António, partiu aos oito anos para Lisboa e foi professora de matemática durante mais de 34 anos. Aposentada há cerca de 17 anos, tem também uma paixão pela escrita.  

O seu primeiro poema foi escrito aos 14 anos e em 2015 juntou todos os seus versos, que estavam guardados numa gaveta e estiveram próximos a ir para o lixo, e editou um livro.  

A partir daí, não parou mais de escrever: “Caí no vício e comecei a escrever, já publiquei cinco livros”, conta ao JA.  

Apesar da idade, aprendeu sozinha a mexer em tecnologias: “Quando deixei de dar aulas, não sabia mexer num computador. Mas depois comprei um e comecei a experimentar. O meu primeiro livro já o escrevi no computador e já envio e-mails e trabalho com o Skype”.  

Durante a pandemia, participou também em várias iniciativas, a convite de bibliotecas, também com vídeos seus a declamar poesia, para entreter as pessoas que estão em casa.  

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