ANDREIA FIDALGO

EXPOSIÇÃO “ALGARVE” – DO REINO À REGIÃO

Um projecto inovador e a renovar

 

Na sequência dos apontamentos alusivos às exposições que integraram o ambicioso projecto da Rede de Museus do Algarve, «Algarve – Do Reino à Região», e à laia de conclusão, algumas considerações finais se impõem. A primeira delas, e talvez a mais importante, é a da originalidade do projecto. Até agora nenhuma iniciativa de âmbito cultural tinha conseguido unir de forma tão eficaz a região algarvia, dividida em barlavento e sotavento, litoral, barrocal e serra. «Algarve – Do Reino à Região» conseguiu, sob esta designação comum, unir doze dos dezasseis municípios algarvios, com uma mostra de treze exposições com temáticas diversificadas e de grande interesse.

Estas exposições, que atravessaram o Algarve de lés-a-lés, deram a quem estava de visita à região, e ao habitante local (porque a cultura não se faz apenas para os de fora) a possibilidade de ficar a conhecer mais pormenorizadamente alguns dos temas que marcam a história de cada concelho. Os mais interessados tiveram oportunidade de aprofundar o seu conhecimento acerca das temáticas adquirindo os catálogos ou participando nas iniciativas que algumas destas exposições disponibilizaram ao público.

No extremo oriente algarvio, os três municípios do Baixo Guadiana, que beneficiaram do estudo efectuado por jovens investigadores do Centro de Estudos de Património e História do Algarve da Universidade do Algarve (CEPHA/UAlg), dinamizaram com iniciativas e actividades comuns (seminários, tertúlias, roteiros gastronómicos…) as três exposições respectivas: ”Alcoutim, terra de fronteira”; “Castro Marim, baluarte defensivo do Algarve”; e “Vila Real de Santo António e o urbanismo iluminista”.

“Cidade e mundos rurais – Tavira e as sociedades agrárias” foi o tema escolhido pelo museu municipal tavirense precisamente para recordar a forte ligação sociocultural da cidade ao mundo rural que a envolve. Também em Silves são evocadas as raízes culturais da região, embora numa perspectiva diferente, com a exposição “Do Gharb ao Algarve: uma sociedade islâmica no ocidente”, que pretendeu lançar alguma luz sobre a história do Algarve islâmico. Enquanto Tavira dinamiza a exposição com actividades e visitas guiadas, em Silves, o visitante é persuadido a visitar a mostra mais que uma vez, pois uma das salas expositivas apresenta, periodicamente, uma nova peça de destaque.

A conhecida vocação marítima da região algarvia foi relembrada em três exposições deste projecto: o Museu Marítimo Almirante Ramalho Ortigão, em Faro, com a mostra “Os Descobrimentos Portugueses”, pretendeu salientar as principais inovações técnicas e tecnológicas que permitiram o sucesso das expedições dos navegadores portugueses; em Lagos, “O Reino dos Algarves de Aquém e para Além Mar. Algarbia Cartographica – Leituras e resenha da cartografia regional” procurou revelar a intensa ligação da região algarvia aos Descobrimentos e o subsequente desenvolvimento da cartografia terrestre; em Olhão, o Museu da Cidade trouxe ao público “Os Compromissos Marítimos no Algarve”, evocando a importância destas associações de mareantes ao longo dos séculos.

A Época Contemporânea foi significativamente recordada nesta mega exposição, nas restantes cinco mostras: em Albufeira, “Outras viagens, outros olhares” procurou evocar o turismo da região desde os finais do século XIX e o seu incipiente desenvolvimento; no Museu do Trajo de São Brás de Alportel, “Sombras e luz, o século XIX no Algarve” tirou partido do próprio edifício oitocentista para recriar ambientes da intimidade doméstica, das vivências sociais e laborais; com “Algarve visionário, excêntrico e utópico”, o Museu Municipal de Faro estabelece o Algarve do século XX enquanto um lugar de inspiração e reflexão, tomando como figura tutelar o poeta João Lúcio; e por fim, como não poderia deixar de ser e a propósito do Centenário da Implantação da República, em Loulé “Mendes Cabeçadas e a Primeira República no Algarve” e em Portimão “Manuel Teixeira Gomes, entre dois séculos e dois regimes. Portimão nos alvores do século XX”, relembrando dois algarvios que ocuparam o mais alto cargo do governo republicano, o de Presidente.

Se muitos elementos positivos há a apontar a este «Algarve – Do Reino à Região», não podemos deixar de referir também um ou outro pormenor menos positivo. A Rede de Museus do Algarve procurou, de facto, trabalhar «em rede», de forma a unir a região algarvia numa iniciativa comum, mesmo tendo em consideração que alguns municípios algarvios não têm, ainda, um museu municipal. Podemos exemplificar com os municípios do Baixo Guadiana que, mesmo não tendo infraestru-turas adequadas, integraram o projecto de forma original e renovada, com exposições de exterior, em alternativa a espaços museológicos fechados. Assim sendo, não deixa de ser lamentável que tenham ficado fora da iniciativa quatro concelhos algarvios – Lagoa, Monchique, Vila do Bispo e Aljezur – cuja presença teria sido imprescindível para a total união da região, num aprofundar conjunto de conhecimento.

Nas treze exposições, onze das quais ainda patentes ao público, talvez se devesse ter tido em maior atenção a divulgação e coordenação em rede, pois apesar das brochuras, panfletos e logótipo comuns, só muito empenhadamente o visitante de uma exposição se conseguiria aperceber que pelo Algarve existiam mais doze exposições integradas na mesma iniciativa. Não podemos deixar de referir, como caso exemplar, a mostra no Convento de Santo António em Loulé, que apresentava na área da loja um mapa da região com a localização de todas as exposições do «Algarve – Do Reino à Região», deixando, desta forma, um convite à visita das restantes. O mesmo não aconteceu, porém, na maioria das exposições…

Como em tudo o que é pioneiro, o inevitável é que nem todos os pormenores possam ser antecipados, porquanto é mais que certo e sabido que “a experiência é a mãe da sabedoria” e a obra perfeita, se é que existe, apenas acontece depois de árduo trabalho e de muitas tentativas. No entanto, o que mais interessa aqui não é a perfeição do projecto; interessa sim compreender que são iniciativas como esta que fazem falta, pois permitem simultaneamente aprofundar o conhecimento acerca do singular Algarve, dar a conhecê-lo aos que estão de visita e aos que cá moram, e acabar, de uma vez por todas, com a ideia de que esta região está apenas vocacionada para um turismo de sol e praia, já há muito esgotado.

É neste sentido que esperamos que esteja para breve um novo projecto da Rede de Museus do Algarve, com um novo tema, que traga nova luz acerca da história regional. E esperemos que, desta feita, todos os concelhos algarvios se possam unir numa iniciativa conjunta, de que a região apenas terá a beneficiar.

* (CEPHA/UAlg)
Nota: O autor não escreveu o artigo ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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