OPINIÃO

AO CORRER DA PENA: 2020 e o Mundo que teremos

OPINIÃO | FERNANDO PINTO
[mobileonly] [/mobileonly]

É meu hábito fazer uma breve resenha do que de relevante se passou no ano que termina. Este ano não o fiz, sobretudo porque me senti pouco confortável em destacar o que de relevante tinha acontecido. Foram tantas e tão variadas coisas, tão díspares e – algumas – tão disparatadas, que não consegui ordenar nada! Decidi então fazer algo um pouco diferente: debruçar-me sobre o que, tendo acontecido durante o ano ou anos passados, creio que se projectará neste e nos anos vindouros. Por exemplo, o clima de contestação generalizada em França, que começou com os “coletes amarelos” e, passado todo este tempo, ainda permanece.

Provavelmente, se perguntarmos como tudo começou, já poucos se lembrarão, mas a verdade é que, ao longo do tempo, uma faixa significativa de franceses tem encontrado justificação para este e outros movimentos de contestação geral. Antes, tinha sido a Inglaterra e as “primaveras árabes”, e as causas profundas são sempre as mesmas: falta de ocupação e de perspectivas para largas camadas de jovens. De génese comum, estes movimentos tendem a replicar-se, adaptados aos diferentes contextos sociais e geográficos. Acresce que, agora, com o Brexit, uma nova ferida se abre na Europa: são de prever novas tensões entre as duas Irlandas e assistiremos aos esforços de secessão da Escócia, que poderão reactivar idênticas vontades noutras paragens, como por exemplo na Catalunha. A fragmentação da Europa, que a União Europeia pretende contrariar desde o seu princípio, poderá ter um revés. Esperemos que não. Do lado britânico, o Brexit parece-me ser um projecto fora do tempo: não consigo dissociar esta “determinação” bretã (provocada por Farages e Johnsons e apoiada por Trumps) de uma ideia nostálgica de Império que ainda seduz os britânicos mais velhos. Só que o Império dessa magnífica Rainha Victória, imperatriz da Índia e senhora do Canadá, da Austrália, da África do Sul e de muitos outros domínios, já não existe! Pobre Isabel II, figura de cortesia que já nem na sua própria casa consegue ser obedecida! O pão dos britânicos terá de voltar a ser encontrado exclusivamente no próprio solo das ilhas e não nos antigos domínios que hoje se sentam, de igual para igual, no Commonwealth. Acabou-se a coutada privada da Grã-Bretanha e será essa a dura realidade que os britânicos terão de enfrentar, agora que rejeitaram as benesses do chapéu-de-chuva europeu!

Outra longa contestação que, julgo, não irá terminar (ou não irá terminar bem, o que é parecido), será o movimento de protesto de Hong Kong. Aí, a questão é muito simples, embora de solução difícil: a China pós-Mao tentou fazer a quadratura do círculo mas, como é bom de ver, ela não é fácil de fazer: «Um país, dois sistemas» obriga a tratamentos diferenciados e muito pouco democráticos de diversas camadas da população e, sobretudo, a um controle férreo de tudo o que se opõe aos desígnios do Estado, como por exemplo, a existência de liberdades cívicas. Hong Kong habituou-se a uma certa ideia europeia de democracia e de liberdade que, quando confrontada com a ideia chinesa de democracia, poucos pontos terá em comum. Assim, os habitantes de Hong Kong recusam liminarmente a falta de liberdades cívicas e de garantias democráticas, que antevêem na crescente integração de Hong Kong na China Popular e por isso lutam desesperadamente contra ela. Têm plena consciência que tal os faria perder quase totalmente as liberdades cívicas de que hoje usufruem. Esta é, portanto, para eles, uma luta de vida ou de morte! Embora lhes tenha sido expressado apoio, este tem sido mais que tímido por parte do resto do conturbado Mundo dito democrático, cada vez mais subjugado à força do capital (de que a “mãe” China de momento é feroz representante). Ou esta luta de Hong Kong se dissemina por muitos outros países em que o capitalismo desenfreado cerceia as liberdades cívicas (num improvável movimento do tipo “Seres Humanos de todo o Mundo, uni-vos!”), ou assistiremos à rápida sucumbência desta mais que legítima aspiração popular.

Enquanto isso, do outro lado do Mundo, os Estados Unidos preparam-se para mais uns anos de “trumpismo”. Com uma inteligência populista assinalável, Donald Trump, soube interpretar o que movia os americanos e sobretudo, o que não os movia: a política externa não lhes diz grande coisa e por isso, basta-lhe um discurso fanfarrão do qual não tira qualquer proveito externo (Coreia do Norte, México, Canadá, China, veremos o Irão, etc.) para capitalizar apoio interno que, em seguida, sabiamente, amplia com recurso aos meios de comunicação, cujo discurso habilmente domina, da televisão ao twitter. Fruto desse discurso tem conseguido também aumentar o nível interno de emprego. No entanto, esse sol deverá ser de pouca dura, como mais tarde se verá. Mesmo assim, só tem sucesso em menos de metade dos eleitores mas, graças ao múltiplo sistema eleitoral americano, dá-lhe para vencer as eleições. Entretanto, vai isolando os EUA do resto do Mundo, não fomentando uma“America Great again!” mas uma “America alone again!”, coisa que só se verá dentro de algum tempo. Contudo, já hoje os EUA estão isolados, quer no domínio da luta contra a poluição (que ele forçou o seu país a abandonar!), quer no controle do armamento nuclear, onde tudo tem feito para provocar o Irão.Uma série de novos satélites destas mesmas lógicas despertam por este Mundo, do Brasil às Filipinas, da Polónia à Arábia Saudita, entre outros. Sinceramente, não estou muito optimista nesta nova década que agora se inaugura mas, havendo um movimento sempre crescente de gente nova e desperta para os reais problemas deste pequeno planeta, da democracia à luta contra a poluição, pode ser que eu me engane. Faço sinceramente votos para que tal aconteça! (Claro que também me apetecia falar de Portugal, mas a crónica já vai longa. Fica para a próxima!) Feliz 2020!

Fernando Pinto

cronicas.fp@gmail.com

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Tamanho da Fonte
Contraste
%d bloggers like this: