OPINIÃO

Ao correr da pena: 2021

OPINIÃO | FERNANDO PINTO

Passamos, de momento, uma imensa provação a nível mundial. Esta pandemia, que esperamos que acabe em breve, assola o Mundo há mais de um ano e cavou um largo fosso entre o antes e o depois. As cicatrizes vão perdurar. Para o bem e para o mal, 2020 jamais se apagará das nossas memórias, porque é de eventos marcantes que são feitas as Histórias dos povos. Tal como já tinha acontecido em 1918/20 com a Gripe espanhola, que de espanhola não tinha nada. O que marca estes eventos é a sua universalidade: poderemos falar com quaisquer europeus, americanos, asiáticos ou africanos, sem esquecer os oceânicos, que todos falaremos do mesmo, embora com diferentes experiências, ditadas pelas variantes regionais, pelas culturas locais e pelas idiossincrasias dos povos. Isto é, também, globalização!

Toda a Humanidade enfrenta o mesmo inimigo e aqui, não são extraterrestres nem ninguém vindo de outro planeta, como ficcionava H. G. Wells na Guerra dos Mundos; o inimigo comum é um vírus tão pequenino que teriamos de alinhar uns 10 000 deles para fazer um milímetro! Por outras palavras, seriam precisos de 400 a 1000 vírus destes para obter o diâmetro de um cabelo! E é este “sub-ser” (não chega a ser um ser vivo!) que tem vindo a destruir a Humanidade e que contribuiu para destronar Donald Trump, ainda o homem mais poderoso do Mundo! Também se pode creditar na conta do vírus, o ressurgir de um poderoso movimento de igualdade racial nos Estados Unidos da América (Black Lives Matter) e, por esse Mundo fora, não será despiciendo admitir que outras manifestações cívicas se tenham produzido, se produzam e frutifiquem. O que também nos fica deste ano que passou foi a poderosa onda de cooperação humana, com maior incidência nas áreas sanitária, médica e farmacêutica, como nunca antes se tinha visto: países cedendo equipamentos e materiais de tratamento a quem deles mais precisava, profissionais de saúde trocando experiências no sentido de melhorar as metodologias de combate ao vírus, laboratórios de investigação colaborando na descoberta de medicamentos e de vacinas e até fábricas reconvertendo a sua produção industrial para equipamentos de combate à pandemia.

Mas também vimos, maioritariamente desde as nossas próprias casas transformadas nos nossos redutos, as maravilhosas ondas de solidariedade do sector da cultura, e também dos sectores agrícola, industrial, piscícola e da restauração, sem esquecer as poderosas cadeias de transporte e distribuição. O Mundo parou o que tinha de parar, mas os recursos essenciais à própria vida, não! Aprendemos que há uns sectores económicos que são mais autónomos que outros, e que os países deverão a tender ser auto-suficientes, isto é, deverão poder sobreviver sem dependerem de outros. Isto terá de ser sobretudo verdade no domínio dos produtos alimentícios, mas também no dos recursos económicos, para que um país não sofra rombos económicos quando é obrigado, como agora, a paralisar. Porque, tenhamos consciência: a continuar esta desenfreada corrida pelo “desenvolvimento” a qualquer preço, os custos ambientais serão cada vez maiores e as catástrofes cada vez mais frequentes. Estas obrigarão, senão a paragens totais, pelo menos a grandes paragens parciais. Sem falar, naturalmente, em sismos, cujas causas nos são externas (movimentos da crusta terrestre), todos os tornados, furacões, tempestades, atmosfera pesada e impossível de respirar, secas, desertificações, acidificação dos mares e dos terrenos agrícolas, etc. etc. etc, tenderão a agudizar-se cada vez mais, dificultando crescentemente a obtenção de recursos. Tudo isto, acredito, será ainda reversível.

Tivemos ensejo de observar, no início desta pandemia, a brutal paragem de quase todo o tráfego aéreo e a leveza que, sem quase darmos por ela, se instalou na nossa atmosfera: o ar passou a ser mais límpido, os fumos quase desapareceram, a poluição baixou muito sensivelmente. Isso revela que é possível, se os povos do Mundo assim o decidirem, iniciar a reversão deste insano caminho que as indústrias, as agriculturas industrializadas e os transportes empreenderam há bem mais de meio século atrás, de depender de combustíveis altamente poluentes para tudo! O que estamos a fazer neste momento, é libertar todo o carbono que ao longo de milénios foi sendo aprisionado no solo pelas árvores, pelas plantas e pelas algas, e depois mineralizado. Esta redução de carbono na atmosfera ao longo de alguns milénios, tornou possível a vida neste frágil planeta Terra. Por mais viagens à Lua ou a Marte que façam, a Terra que terá de continuar a ser o único local em todo o Universo que a Humanidade pode habitar. Há só uma Terra! Não pode ser, portanto, indiferente a ninguém, seja ele australiano, canadiano ou congolês, o que se faz em Portugal, no Brasil ou na Índia!

A Terra não é propriedade de ninguém! Está-nos emprestada e será no que nela deixarmos, que viverão os nossos filhos e filhas, os nossos netos e netas, e os filhos e filhas deles. Será também no que nela deixarmos que terão de viver todas as espécies animais e vegetais que permitem, não só a nossa vida, como a própria vida na Terra! É por tudo isso que é importante que nos comportemos como o todo que somos, e não estritamente como seres individuais, que também somos, mas sem nunca esquecer que somos um elo de uma cadeia que não pode ser quebrada. Individualmente, sem essa cadeia, não conseguiremos sobreviver. Esta é a verdadeira globalização. Agora, é o combate ao vírus que nos põe à prova, depois, será o combate a todos os excessos que permitiram que toda a Humanidade fosse ameaçada por um simples (?) vírus! Em nome do futuro da própria Humanidade!

Fernando Pinto

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