OPINIÃO

AO CORRER DA PENA: 25 de Abril, sempre?

OPINIÃO | FERNANDO PINTO

Enquanto decorria o 25 de Abril, há 44 anos, muitas dúvidas se colocaram sobre o tipo de golpe a que assistíamos: seria “dos ultras”? Seria “do reviralho”? No final do dia, já não havia dúvidas de que não era dos “ultras”, nem sequer (pelo menos só) dos “spinolistas”, dadas as várias declarações entretanto difundidas pelo MFA (Movimento das Forças Armadas) de sentido inequivocamente progressista (como então se dizia). Até o facto de a designada Junta de Salvação Nacional ter de obedecer ao MFA (de que havia um conhecimento prévio algo difuso mas se sabia ser um movimento essencialmente de capitães) nos tranquilizava. Com o imediato fim da censura aos jornais, com as sucessivas libertações de presos políticos e com as declarações sobre a urgência do fim da guerra colonial e o destino a dar ao (então) império colonial, as dúvidas dissiparam-se totalmente.
Ainda não passara uma semana e o regresso de Mário Soares, de Álvaro Cunhal e de muitos outros oposicionistas colocava um timbre claramente progressista na “revolução do 25 de Abril”. O caminho era o da liberdade e da democracia! Após 48 anos de repressões, censuras, polícias políticas e dos costumes, a liberdade sabe deliciosamente. Com o tempo e o surgimento à luz do dia de todos os partidos até então clandestinos, e de outros que entretanto se formaram (como o PPD e o CDS), abriu-se a caixa da discussão política e ideológica e não havia quem não tivesse opinião. E ainda bem! As correntes de pensamento político irromperam e Portugal tornou-se o país mais livre da Europa (e provavelmente do Mundo!). Por cá se traduziram e editaram todos os livros políticos alguma vez publicados por esse mundo fora, todas as correntes políticas tinham por cá “representantes” que as defendiam acaloradamente. Foram “cursos intensivos de política” nos chamados “anos de brasa”. Mas, uma vez preenchida a necessidade urgente de praticar a liberdade, a discussão foi caindo na rotina e a vida voltou ao ramerrame habitual. Hoje é o que se vê: da discussão de grandes temas como “socialismo ou social-democracia?”, “socialismo ou comunismo?” ou “Que via para o socialismo?”, foi-se passando subtilmente para discussões ou polémicas mais comezinhas e prosaicas, pautadas por um sentido mais pragmático da vida, centrado nos salários, nas regalias ou na idade da reforma. Fez-se da democracia o prato forte sem a qual nada existe e na qual tudo reside, e foi-se instalando a ideia de que a política era para os políticos, e que só de quatro em quatro anos o povinho seria “importunado”! E que era isto a democracia! Fomos deixando de ser solicitados para discutir o que se pretende com a política e ainda menos com as teorias ideológicas, que assim foram definhando e se desajustando da realidade. Os próprios políticos passaram a pouco mais que gestores da coisa pública, mais ou menos competentes, mais ou menos honestos.
As discussões de teorias, hoje, têm normalmente mais a ver com o futebol que com a política. Se não acredita, basta comparar a quantidade de horas utilizadas a discutir o futebol e a política, no conjunto das dezenas de canais a que hoje temos acesso. Claro que não é por acaso! Quem nos queria pôr a dormir, pôs, e hoje até achamos normal haver bancos que não são instituições da máxima confiança e seriedade e que cobram aos seus depositantes o simples facto de estes lá terem o seu dinheiro (que eles emprestam com juros), haver deputados que são advogados de empresas que mantêm negócios com o Estado (e outros que recebem dois subsídios para o mesmo fim e acham isso ético), ou que haja quem receba luvas para beneficiar uma empresa sobre as outras ou até mesmo para simplesmente estar calado! Isto está tudo ligado e foi através do futebol que começámos a aceitar que um jogador pudesse pôr a mão na bola desde que o árbitro não visse e outras malandrices semelhantes. É isto que se ouve nos relatos, nas intermináveis análises técnicas, ou nos quase imorais debates entre adeptos “colunáveis” sobre o último caso do futebol. E estes programas, que não têm “bolinha”, podem por isso ser vistos por todas as crianças, constituindo assim parte da sua educação! Qualquer criança é muito aquilo que vê e estes programas constituem até uma das mais fortes ligações intergeracionais dos nossos dias! De que vale ter grandes princípios, tecer grandes teorias políticas, sonhar com grandes ideais, se no fim o que prevalece é a cunha, o “jeito”, a corrupçãozinha ou a corrupçãozona, e no fim quem se lixa é sempre o mexilhão (que se deixou ver ou apanhar)? Foi assim, em minha opinião, que chegamos a uma sociedade sem princípios ou melhor, a uma sociedade que parece deleitar-se em jogos de como melhor aldrabar os princípios que ela própria (e bem!) consagrou, os tribunais que ela própria (e bem!) instituiu, a ética que ela própria (e bem!) propala.
É por isso que digo que não sei, tristemente, se deverá ser o “25 de Abril, sempre!”. Aquele 25 de Abril que eu celebro não é o 25 de Abril disto, mas das discussões ideológicas, das fraturas políticas, da democracia exercitada, da ética praticada. Para isso, em minha opinião, haverá que ser humilde e repor tudo em discussão e discutir! Não partindo do zero mas da análise dos erros e dos sucessos alcançados, perceber onde estamos e para onde queremos ir. Só a compreensão do caminho percorrido nos permite perceber para onde estamos a ir e se é mesmo esse o caminho que queremos seguir. Se não for, que se corrija o que há a corrigir, se for, que se continue, sempre rumo ao futuro que escolhermos! E aí sim, Viva o 25 de Abril!

Fernando Pinto

*cronicas.fp@gmail.com

Advertisements
%d bloggers like this: