AO CORRER DA PENA: Os edifícios históricos “reabilitados”…

Os temas são tantos, que por vezes inicio dois ou três ao mesmo tempo e depois perco gás e já não os continuo, mas há temas recorrentes que me voltam à memória vezes sem conta. Porque me preocupam. Porque, infelizmente, não saem “de moda”! Um deles é esta nova febre de “restauro” que se instalou em Portugal, e ameaça todos os edifícios com mais de sessenta anos de idade! É ver esses edifícios a serem esventrados, só mantendo intactas as suas paredes exteriores e demolindo sem piedade tudo o resto. Cá fora, normalmente, exibem-se cartazes de “reabilitação, “reutilização” e, pior ainda, “restauro de imóvel”, como se a única parte importante de um edifício fosse só a sua “casca”! Depois, nos cartazes de venda, é frequente anunciarem-se “habitação completamente equipada em edifício histórico totalmente remodelado”, ou coisa semelhante! Pobre “edifício histórico” e pobres compradores novos, que levam gato por lebre: por um lado, têm um edifício “a armar ao pingarelho tecnológico”, cheio de elevadores, ares condicionados, máquinas inteligentes de regulação de tudo e mais alguma coisa, interfones vídeo, controles à distância e outras modernices, encafuado numa pele que, embora, eventualmente agradável à vista, está velha e portanto problemática, sobretudo quando passa a ser obrigada a conviver com um miolo novo e estruturalmente diferente.

Explico-me: frequentemente, o facto de o edifício já existir, obriga esses novos equipamentos a “adaptações” e “remendos” sempre invisíveis, é certo, mas que a breve trecho (entenda-se este “breve trecho” como uns possíveis vinte anos) vão entrar em choque e por isso em rotura com a “casca” pré-existente. Isto, claro, se falarmos de boa construção (anterior e actual) e bons equipamentos (actuais), porque o que tenho visto mais frequentemente são “remodelações” que deixam muito a desejar em termos dos acabamentos actuais (qualidade dos próprios materiais e aplicação). Isto, admitindo já que a estrutura de suporte do imóvel (o seu “esqueleto”) foi convenientemente considerado, tratado e não levantará grandes problemas. Explico com um exemplo: aqui há semanas, a pedido de uma amiga, fui visitar um primeiro andar que abria rachas desde que tinham começado obras no piso de baixo. Os novos proprietários do piso de baixo já tinham prometido tapar as rachas, mas esta minha amiga não estava lá muito convencida e pediu-me para dar uma vista de olhos. As rachas, disse-me, ainda não tinham parado de abrir, embora o responsável pelas obras lhes garantisse que estava tudo controlado. Quando lá fui, permitiram-me o acesso ao piso de baixo e aí constatei (tendo tido prévio acesso aos desenhos) que a parede do meio da casa (que, conjuntamente com as paredes laterais – empenas -, “aguenta” o peso dos andares) tinha pura e simplesmente sido completamente removida, não existindo qualquer vestígio da estrutura anterior! Um tabique de estafe sem qualquer capacidade estrutural, substituía parcialmente a parede retirada. Trocando em miúdos, não havia qualquer parede intermédia a suportar os 3 (três) pisos de cima! Não surpreendia por isso que as rachas não parassem de aumentar e, vá lá que ainda fomos a tempo de introduzir uma estrutura que aguentasse aquilo tudo! Ao meu comentário de “Ainda bem que entretanto não houve um sismo!”, o responsável pela obra replicou: ”Se houvesse um sismo, caía tudo!”, como se esse fosse o resultado natural e único que se deveria esperar em caso de sismo! É por isso que não entendo estas novas leis de que as “pequenas obras” não precisam de licenciamento camarário! De quem é a responsabilidade de avaliar o que é uma “pequena obra”? Dos proprietários que, na maioria das vezes, não têm a mínima noção do que é ou como funciona uma estrutura de suporte de um edifício? Do empreiteiro, que muitas vezes não é mais que um trolha esperto e desenrascado e que, passada meia dúzia de meses (se tanto) já ninguém sabe onde pára? Quem tem, neste momento, essa responsabilidade? A quem se assacarão responsabilidades quando um dia, num qualquer sismo de grau 4 ou 5, perfeitamente suportável por uma estrutura coerente, estas “recuperações” caírem como baralhos de cartas que efectivamente são? Nessa altura, já será muito tarde para todos os que ficarem para sempre aleijados ou incapacitados, ou morrerem. Porque, não tenhamos dúvidas, o mais certo é haver mortes. Isto, claro está, para já não falar dos prejuízos de quem passou a vida a trabalhar e, de um momento para o outro, verá o seu próprio património no chão!

Fernando Pinto

*arquiteto cronicas.fp@gmail.com

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