Ao Lazcano e à Lisbet

Fomos surpreendidos, no passado sábado, pela morte inesperada de Erasmo Lazcano e sua mulher Lisbet Lastre, em circunstâncias que as autoridades ainda estão a investigar, apesar da comunicação social, ter avançado, incluindo o nosso Jornal, com a possibilidade de um crime de violência de género, induzidos por informação veiculada pelas autoridades espanholas.

Passados estes dias desde o infausto acontecimento e depois de uma ponderada reflexão, assente no conhecimento que tínhamos do casal, de quem eramos amigos, custa-nos a acreditar nessa hipótese, a não ser que a mesma tenha acontecido num momento de loucura, de que ninguém está livre.

Lazcano vinha quase todas as semanas à nossa redação e quando não nos visitava, falava connosco por telefone ou pelo watsapp. Sempre muito cordial, respeitoso e afável, nutríamos ambos muita consideração e carinho, um pelo outro e tínhamos opiniões muito similares sobre a política cubana e os temas mais sensíveis da atualidade internacional. Lazcano era um revolucionário. Coronel do exército cubano. Trabalhou nos serviços de informação e foi combatente, ao lado dos movimentos de libertação de Angola e de Nicarágua. Mas sendo um revolucionário era também um humanista, profundo conhecedor da doutrina de José Marti, de cuja fundação foi dirigente. Pelo que conversávamos, posso assegurar que se tinha tornado um democrata, que acreditava nas virtualidades da democracia pluralista e representativa, mas nunca esqueceu os valores e conquistas da revolução cubana, principalmente no domínio da cultura, da educação, da ciência e da medicina.

Falamos mais de Erasmo Lazcano porque privávamos mais com ele do que com a mulher Lisbet, mas dela também tínhamos a ideia de que era uma pessoa muita disponível para os outros, muito solidária, amiga do seu amigo e uma mulher de causas. Estavam ambos perfeitamente integrados na sociedade aiamotina, onde deixam muitos amigos.
Se estavam em rutura matrimonial, não se percebia. Ainda há pouco mais de uma semana, estivemos com os dois na florista de Ayamonte que Lisbet geria e aquilo que nos pareceu é que continuavam bem um com o outro.

No dia 26 de abril tivemos a honra e o privilégio de apresentar, a convite dele, um livro que ele publicou sobre um conjunto de crónicas que escreveu no Jornal do Algarve e lá estava Lisbet e o filho a apoiá-lo e a tratar de toda a logística, em especial de um beberete que, aparentemente preparou com todo o carinho. Nada fazia prever este trágico desfecho, decorrido pouco mais de um mês.

Enquanto as autoridades espanholas investigam a ocorrência, deixamos aqui o testemunho do seu pensamento sobre a violência de género, escrita pelo seu próprio punho numa das crónicas que escreveu no nosso jornal e que tornam ainda mais estranho este caso:
“Com apenas o uso da razão recordo minha mãe falando-me que às meninas não se lhes levantava as mãos e já um pouco mais velho, reafirmava-me que um homem nunca pode agredir fisicamente uma mulher, porque é um abuso e deixaria muito a desejar como homem. Aos 12 anos, ensinava-me que às meninas se oferecem flores, poemas e palavras belas, mas nunca se maltratavam, que se um dia me fizessem algo, a melhor forma de lhes responder seria com a indiferença, porque esta doía mais do que o castigo corporal”.

Desconcertados com este drama que nos apanhou de choque na manhã do último sábado, já depois de ter saído a edição semanal do Jornal do Algarve, deixamos aqui o nosso mais profundo agradecimento aos dois pela amizade e colaboração que nos dispensaram e as nossas mais sentidas condolências à família enlutada.

Fernando Reis

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