Aposta no transporte ferroviário de mercadorias contribuiria para a competitividade do país

A falta de investimento em estruturas para um eficiente transporte ferroviário de mercadorias está a tirar competitividade ao país e pode contribuir para o fracasso de alguns projectos, como o do porto de Sines, defendeu um especialista em transportes.

Manuel Tão, economista investigador da universidade do Algarve e especialista em transportes, critica a dependência do país pelo transporte rodoviário e considera que transportar mercadorias por comboio, que representa actualmente apenas 1,5 a 2,0 por cento da quota de mercado nacional, traria maior competitividade ao país.

Para Manuel Tão a actual dependência rodoviária vai trazer em breve graves problemas à competitividade nacional, porque, depois do “calafrio de há dois ou três anos, com a subida do petróleo”, já se fala do pagamento de emissões e da ‘eurovinheta’, a taxa extra que certos países da Europa querem implementar “porque se sentem desconfortáveis com o tráfego de camiões de atravessamento”.

“Os países que dependam exclusivamente do transporte rodoviário de mercadorias que não tenham apostado atempadamente em soluções intermodais vão ter agravados os seus custos nos transportes de mercadorias, o que mexe também com as importações e as exportações. Somos nos os últimos pagadores de um sistema logístico insuficiente que foi criado com esta obsessão pelas estradas”, disse.

Para este especialista, é necessário apostar em linhas férreas nacionais alternativas principalmente à linha do Norte, com “vários problemas de saturação por o transporte de mercadorias conviver com comboios rápidos e regionais”, sugerindo que as linhas do Oeste e da Beira Baixa – que considerou um bom exemplo de requalificação – podem ser boas opções.

Defende ainda a necessidade de linhas que liguem os portos portugueses a Espanha e além Pirinéus, nomeadamente a reabertura da linha do Douro.

“Não há economia do mar sem caminho-de-ferro. Fala-se que temos de ser um país que tem de investir nos portos, que tem de se internacionalizar, e damo-nos ao luxo de ter uma linha directa entre Leixões e Madrid fechada ao tráfego”, afirmou, destacando ainda como urgente a construção de uma via-férrea do porto de Sines a Espanha, prevista desde 1988.

“Quando se trabalha com um porto, principalmente como o de Sines, ou se tem lá o caminho-de-ferro, que é capaz de trabalhar com grandes escalas, ou não funciona, porque os custos de transporte por camionagem são demasiadamente elevados”, observou, salientando que “para transportar 60 contentores de 20 pés são precisos 30 camiões e de apenas um comboio”.

Rui Lucena, porta voz da CP responsável pelo serviço de mercadorias, admitiu que “conceber uma nova rede ferroviária é um factor critico para desenvolver o transporte de mercadorias”, porque a rede a actual já não corresponde às necessidades do mercado, embora “os constrangimentos entre passageiros e mercadorias só se verifiquem nos troços com maior fluxo de comboios, como a linha do Norte”, onde existe sempre a hipótese de “estender comboios de mercadorias para períodos nocturnos, sem passageiros”.

Realçou ainda que a ferrovia não tem muitas vezes grandes opções de percurso, como no caso de Sines a Madrid, que obrigam “a percorrer mais 200 km do que seria preciso por rodovia”, através do Entroncamento, devido à falta de uma via directa.

“Logo, o custo desses 200 km tem de ser repercutidos em alguém”, observou, destacando que as mercadorias circulam apenas “pelas redes disponíveis” e, quanto mais rede ferroviária existir, “mais alternativas existirão para o mercado”.

AL/JA

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