Faro
OPINIÃO

Crónica de Faro: «O Pai da Praça»

OPINIÃO | JOÃO LEAL

Era uma figura emblemática e reverenciada da cidade de Faro com os seus dois metros ou mais de altura, tendo um grosso bastão que o amparava na sua estatura. Vendia peixe no espaço a tal destinado, a chamada «Praça do Peixe», no lado nascente do antigo Mercado, na Rua Comandante Francisco Manuel, então dita de Rua do Registo, entre o topo do Jardim Manuel Bivar e as Portas do Mar.

De fronte ficava o «souk», à semelhança dos mercados árabes, encostado à muralha, com pequenas barracas, ou toldos onde comerciantes locais (srs. António, Filipe e outros) vendiam dos tecidos (chitas, sedas, gregorons, tafetás e quejandos) aos aviamentos (botões, sedalinas, colchetes, chumaços, etc.) e dos brinquedos às quinquilharias. No local onde está a sede da AVIMAR (Associação dos Viveiristas e Mariscadores) e o restaurante do famoso campeão boxeur Bento Algarvio ficava, em telheiro de ferro e colunatas esta «Praça do Peixe».

Para além das toldas algumas «vendas» (tabernas) onde fregueses e «peixeiros» se dessedentavam de quando em vez.


Por ali pontificava o «Pai da Praça», que outro nome nunca lhe conheci ou ouvi chamá-lo. Foi assim durante décadas e décadas, pois já retirado da actividade pelo peso dos anos o via passar, nas manhãs do quotidiano, rumo ao actual Mercado Municipal, onde ia em evocativa recordação de amigos e factos do que fora a sua longa vida «á ponta de uma tolda».


Este genuíno e autêntico farense que conviveu com milhares e milhares de nossos conterrâneos deveria ter algum laço de família com a minha gente já que ele se dirigia sempre a minha avó paterna, dizendo-lhe: – Parenta, Francisca! Tenho aqui uns bons charros do alto ou lírios para lhe dispensar!


«Pai da Praça» evoca todo um tempo ido e que me recordo, de modo próprio Faro do período da II Grande Guerra Mundial (1939/45).

Era-o, quando miúdo, agarrado aos cadilhos do xaile da minha querida avó a acompanhava ao Mercado ou para a acompanhar na difícil tarefa de então ou para ficar a marcar o lugar nas extensas filas («bichas») que se formavam, não obstante o «racionamento» para o pão, o carvão (as económicas «bolas», de cisco e barro), o leite, etc. e outros produtos de necessidade básica.


Era o tempo de toda uma geração de comerciantes na Praça, desde o Tio Bandarra, à entrada, com as frutas e legumes aos talhantes, entre os quais essas referências, que eram os Rodolfo, os Florindos e alguns mais.


Mas de modo próprio o «Pai da Praça» é o mais prevalecente, com as suas gigantescas mãos, nas quais as minhas de menino imberbe eram uma minúscula presença.

João Leal

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