CULTURA

As influências do árabe na língua portuguesa (1)

Jose Domingos

São Bartolomeu de Messines é a terrinha que me viu nascer, há setenta e oito anos.


Situada no barrocal algarvio, entre a serra e o litoral, com todas as condicionantes de abertura ao exterior e arejamento social – apenas quebradas, desde finais do século XIX, pelo Caminho de Ferro –, sempre padeceu, ao longo dos tempos, como reflexo desse facto, de um reduzido nível médio cultural das suas gentes, especialmente os mais idosos, afirmação que faço, a contragosto e sem qualquer conotação menos positiva.


Dito de outro modo, Messines foi sempre, pelas razões que atrás refiro, uma terra quase parada no tempo, onde os costumes e termos utilizados se perpetuaram, século após século, com praticamente muito poucas alterações.


Como é do conhecimento comum, é nitidamente árabe a sua matriz longínqua, desde logo, pela designação, Mussiene, que foi atribuída por algumas tribos berberes – tribos que integraram parte do exército invasor, composto, segundo nos dizem as crónicas, por 100 cavaleiros, 400 guerreiros e cerca de 7000 homens daquelas tribos, exército chefiado pelo general Tarik ibn Ziyad, também ele berbere –, as quais se terão instalado, pouco depois da invasão da Península, em 711, na zona virgem que ali encontraram, na falda sul do cerro, como abrigo para as nortadas.


Designamos o seu cimo por Penedo Grande, um mítico local aprazível e de recolhimento, onde apenas se ouve o brando marulhar das folhas das árvores, sopradas pela fresca brisa, que nos envolve e afaga, mesmo nos mais quentes dias do ano, onde nos é oferecida uma visão deslumbrante da longínqua serra, onde o silêncio convida à meditação e onde, muito provavelmente, o nosso poeta João de Deus criou alguns dos seus mais belos poemas, inspirado na comunhão com a beleza natural circundante.

Berbere (do gr. bárbaros, estrangeiro, designação que os Gregos davam, depreciativamente, a todos os que não falassem a sua língua) era nome comum a várias tribos de etnias diferentes., habitantes do Magrebe, que foram convertidas ao Islão, no âmbito da formação do Império Árabe.


As tribos ditas árabes, a outra componente dos invasores da Península Ibérica, são de etnia semita – tal como os Hebreus – e, maioritariamente, originárias das regiões desérticas da Península Arábica.

Viviam, antes da formação do Império Árabe, basicamente, do pastoreio e do comércio, praticando um regime de vida nómada, pelo que eram, genericamente, designados por Beduínos (do ár. badawî, habitante nómada do deserto), os quais haveriam de vir a constituir a base do exército de Maomé, na expansão político-religiosa inicial do Islamismo.

Antes da conversão ao Islão, as tribos beduínas eram politeístas e adoravam diversas divindades, cujos ídolos estavam reunidos num templo chamado Kaaba, situado no centro de Meca, seu principal centro religioso.

Contrariamente aos Beduinos, as tribos berberes não são semitas e têm origens em várias etnias distintas, englobando Tuaregues, Cabilas e outros povos do Sahará (do ár. saharâ, deserto).

O que une, pois, Árabes e Berberes é apenas o facto de professarem a mesma religião, o Islamismo.


Pelo facto de terem sido os primeiros a iniciar a invasão da Península, em 711, chefiados pelo general Tarik ibn Ziyad, os Berberes achavam-se – e com alguma razão – com maiores direitos do que os Árabes, cujas tribos chegaram, apenas no início do ano seguinte, integrando um grande exército muçulmano, comandado pelo general Musa ibn Nusair, governador árabe da África, que veio consolidar e expandir a conquista começada por Tarik.

No entanto, os Berberes foram empurrados para o interior da península, além de que ficaram com terras mais pobres.

Este facto levou a que, desde o início, as relações entre Berberes e Árabes corressem constantemente mal.

As desavenças entre as duas facções tornaram-se frequentes e constituiram um dos motivos que esteve no começo da desunião do ocupante, com manifesto benefício para as forças cristãs.

Era tamanho o mal-estar reinante entre as duas forças muçulmanas que fazia esquecer o ódio comum que ambas professavam contra os cristãos.
Estes, ao contrário, constituíam um grupo coeso e compacto.

Os Beduínos – ramo ocupante mais poderoso – ou, mais propriamente, os Árabes consideravam-se superiores aos Berberes, os quais tratavam com alguma displicência, um pouco mais do que como “carne para canhão”, como costuma dizer-se.

A subalternização praticada pelos Árabes, face aos Berberes, constituiu, desde o início da invasão da Península, razão de graves dissensões, que seguiram o seu caminho, com todas as consequências daí advenientes, designadamente, divisões e enfraquecimento dos invasores.

O episódio, ocorrido em 750, em que forças berberes – que tinham sido colocadas, no centro de Portugal e da Galiza – foram evacuadas, pelo facto de se terem revoltado, é um dos exemplos visíveis da animosidade existente entre Árabes e Berberes.

Este longo processo de desavenças várias levou à balcanização do Califado de Córdova – o período árabe mais áureo, na Península Ibérica –, em Taifas (do ár. tâ‘ ifa, partido, facção), pequenos emirados ou reinos, que se digladiavam mutuamente e constituiu o princípio do fim do domínio árabe.


Apenas como nota lateral, permita-se-me referir que foi notável e impressionante a facilidade com que, em pouco mais de sete anos, os Árabes lograram ocupar a quase totalidade da Península, num quase passeio, apoderando-se do que viriam a apelidar de Sharq-al-Andalus, “Oriente da Ibéria”, abrangendo toda a vasta zona do sudeste da Península – onde floresciam as notáveis cidades de Sevilha, Córdova e Granada – e Gharb-al-Andalus, “Ocidente da Ibéria”, que correspondia, aproximadamente, à Lusitânia Romana, que, durante séculos, teve a sua capital em Silves, a princesa da poesia árabe, celebrada pelo rei-poeta Al-Mutamid, que, nas varandas do palácio da sua alcáçova, compunha e declamava belos poemas, nas longas tardes frescas de Verão, nos braços de doces “gazelas”, de cabelos esvoaçantes da cor do ébano e olhos negros faiscantes de desejo.

À relativa facilidade de penetração e instalação das força e cultura árabes não foi alheia a tolerância que os novos senhores mostraram para com os usos e costumes locais, admitindo a prática do culto para as populações submetidas, mas uma tolerância que, humilhantemente, tinha de ser comprada, mediante o pagamento de um imposto, a jízia (do ár. jizya, tributo).

Apesar de tudo, o “invasor” foi visto, como uma espécie de libertação, face ao peso opressivo e tirano visigótico dos senhores da guerra.

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A primeira cidade tomada, em território europeu, foi a de Algeciras, assim como os rochedos da costa, hoje conhecidos como Rochedos de Gibraltar, que tomaram o seu nome do do comandante berbere, Tarik.

Daí, que Gibraltar signifique, literalmente, djabal al-Tarik, montanha de Tarik.

Simbolicamente, logo que pisou solo europeu com o seu exército, Tarik ordenou que fossem queimadas as embarcações, que havia utilizado na passagem do Estreito, a fim de impedir qualquer retorno, assinalando, com essa atitude, a sua determinação na invasão.

Lamentavelmente, os vestígios materiais da longa permanência muçulmana ficam aquém das expectativas, principalmente porque a política cristã de reconquista foi a de “terra arrasada”, o que mostra a brutalidade goda.

Cada localidade tomada aos Árabes era destruída e os objectos e construções queimados em fogueiras que ardiam durante dias.

Restaram alguns elementos que atestam este período da vida muçulmana entre nós, principalmente nas muralhas e castelos, bem como no traçado de ruelas e becos de algumas cidades do sul do país.

A extensão dos domínios muçulmanos pelo Mediterrâneo prejudicou o comércio da Europa Ocidental com o Oriente, visto que este mar tinha deixado de ser o antigo “Mare Nostrum” para passar a uma espécie de “Mare Islamicum”, sob o domínio muçulmano, o qual apenas viria a terminar, já sob o Império Otomano – também ele obediente ao Islão –, bem mais tarde, em 1571, com a derrota das forças turcas, na decisiva batalha naval de Lepanto.

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O domínio do Mediterrâneo pelos Árabes foi um dos factores que contribuiu para o isolamento dos reinos bárbaros cristãos, que se voltaram mais ainda para uma economia agrícola e rural, o que contribuiu para a formação do Feudalismo e para a estagnação da Europa, durante grande parte da Idade Média.

Da Índia, que sofreu as invasões muçulmanas, os Árabes adoptaram os trabalhos dos extraordinários matemáticos indianos e de lá trouxeram:

– O sistema de numeração ocidental actual, que substituiu a romana.

– A novidade dos números negativos.

– A noção do zero.

A noção do zero (ou nada) foi um passo gigante no desenvolvimento da álgebra (do ár. al-jabr, a ‘redução’, disciplina que representa as grandezas, através de letras chamadas incógnitas).

O termo ‘álgebra’ tinha, originalmente, entre os Árabes, o significado do trabalho cirúrgico de recolocação de ossos quebrados ou deslocados.

O sentido de ‘redução’, como significado árabe para álgebra, pode ser exemplificado na pequena equação x + 2 = 5, em que “x” é uma incógnita, cujo valor se pretende conhecer.

Como se sabe, numa equação, quando se muda um valor de um dos termos para o outro, o sinal do valor é invertido.

No caso, mudando “+2” para o outro termo a equação ficará x = 5 – 2, pelo que o valor de x = 3.

Concluindo, ocorreu, de facto, uma ‘redução’ da equação.

Com os Persas, os Árabes aprenderam a conhecer melhor o céu e os astros.

Em contacto com os Chineses, conheceram e mostraram ao ‘mundo conhecido’ novas medicinas, a pólvora, o papel e a bússola.

Também a cartografia – desde logo, aproveitada pelo nosso sagaz rei D. João II – muito haveria de ser útil aos navegadores portugueses, assim como o astrolábio, introduzido pelos Árabes e utilizado para medir as distâncias das rotas marítimas, assim como na técnica de navegação pelas estrelas.

Foi igualmente notável o seu legado, no campo da química e da arquitectura.

A influência árabe foi particularmente importante na vida rural e nas pescas, sendo determinantes o desenvolvimento de novas técnicas de regadio – nora, azenha, levada, cegonha –, assim como a introdução de novas plantas, como o limoeiro, o cânhamo, a amoreira, o algodoeiro, a cana-de-açucar, a laranjeira, a amendoeira, provavelmente, o arroz, o desenvolvimento da cultura da oliveira, da alfarrobeira e a plantação de grandes pomares – são famosos os figos, laranjas e uvas do nosso Algarve –, que reforçaram a vocação agrícola da região mediterrânea e, com particular destaque, da Península Ibérica.

Na indústria, criaram as técnicas do fabrico do mosaico, cerâmica e vidro.

Os característicos terraços que encimam as tradicionais casas de Olhão – as tipicas açoteias (do ár. as-sutayya, mirante, terraço) – são mais uma herança da permanência árabe entre nós, assim como as técnicas dos trabalhos em couro e em metal, além do hábito da ornamentação das varandas com ferro forjado.

A ocupação islâmica não provocou alterações na estrutura linguística da língua portuguesa, que se manteve latina, mas contribuiu com varias centenas de vocábulos, sobretudo substantivos referentes a realidades empíricas do dia-a-dia, como vestuário, mobiliário, agricultura, pesca, instrumentos científicos e utensílios diversos.

(continua)

José Domingos

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