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Assoreamento põe vidas em risco

Os pescadores dizem que a acumulação de areias está a tornar-se “muito perigosa” para as embarcações e temem que, só quando acontecer o pior, se tomem medidas
Os pescadores dizem que a acumulação de areias está a tornar-se “muito perigosa” para as embarcações e temem que, só quando acontecer o pior, se tomem medidas

As entradas das barras de Alvor e da Fuzeta (Olhão) costumam formar bancos de areia que se tornam muito perigosos para as embarcações de pesca e marítimo-turísticas. Os alertas partem dos pescadores locais, após vários acidentes ocorridos nas últimas semanas. O desassoreamento é uma exigência de anos, mas nenhum dos pedidos feitos até hoje obteve resposta das entidades oficiais

Há muitos anos que os pescadores vêm denunciando o perigoso assoreamento das barras algarvias (fenómeno que reduz a profundidade dos rios), especialmente nas entradas das barras de Alvor (Portimão) e Fuzeta (Ria Formosa-Olhão), onde milhares de pessoas dependem do mar nestas comunidades piscatórias.

Os homens do mar, mas também as empresas marítimo-turísticas, reclamam que a situação está a limitar as suas atividades, pois as embarcações só podem entrar e sair em períodos fixos. E, mesmo assim, com certos riscos.

O assoreamento destas barras – que já provocou vários naufrágios nas últimas semanas, alguns com feridos – está a preocupar os pescadores, apoiados pelos autarcas das juntas de freguesia e câmaras municipais. Dizem que a acumulação de areias está a tornar-se “muito perigosa” para as embarcações e temem que, só quando acontecer o pior, se tomem medidas.

Na Fuzeta, o assoreamento da barra só permite que os barcos consigam passar durante a maré cheia, sendo que alguns pescadores chegam a esperar horas para ir ao mar.

No caso da ria de Alvor, quer o canal de navegação, quer o canal da barra, encontram-se assoreados. Por isso, a situação é igualmente complicada: na maré baixa, a profundidade da água no canal da barra é de apenas um metro, enquanto no canal de navegação não ultrapassa os 50 centímetros!

Agastados e revoltados com esta situação, alguns pescadores já decidiram transferir as suas embarcações para os portos vizinhos de Lagos e Portimão, para não estarem sujeitos às marés.

Acidentes cada vez mais frequentes

“Esta situação ameaça a segurança dos pescadores e das tripulações e passageiros das embarcações de recreio”, acentua o grupo parlamentar do PCP, que visitou recentemente o porto de pesca de Alvor, reunindo-se com a associação de pescadores local.

Os comunistas lembram que, recentemente, uma embarcação marítimo-turística que faz a ligação Alvor-Portimão encalhou, tendo-se registado feridos.

Já na passada quinta-feira, o progressivo assoreamento da ria Formosa, junto à barra da Fuzeta, em Olhão, provocou mais um naufrágio. O acidente, que envolveu uma embarcação com seis turistas britânicos a bordo, não provocou feridos.

Segundo os pescadores e as empresas marítimo-turísticas, este tipo de acidentes vai tornar-se cada vez mais frequente no Algarve se nada for feito. Isto porque o assoreamento está a causar cada vez mais problemas de navegação e a colocar em risco a segurança das pessoas. E receiam que tenham de ocorrer mortes para que as autoridades competentes avancem com o desassoreamento nos locais de risco.

Problema do assoreamento sem resposta das entidades oficiais

Para além das vidas em perigo, o PCP lembra que “o assoreamento diminui ainda a rentabilidade das atividades de pesca e marítimo-turísticas, já que a entrada e saída da barra e a utilização do canal de navegação estão fortemente condicionadas pelas marés”.

“Alvor não é só conhecida pelas suas praias, mas pela sua aldeia piscatória. O problema do assoreamento da barra e do canal de navegação, se não for resolvido, coloca em causa a sobrevivência da comunidade piscatória de Alvor”, sublinha o grupo parlamentar, que exige respostas urgentes do Governo (ministra da Agricultura e do Mar) sobre esta situação.

A questão é saber se os deputados do PCP terão mais sorte que os pescadores das zonas de Alvor e da Ria Formosa, já que estes têm lançado diversos alertas sobre o problema do assoreamento das barras algarvias, nos últimos anos, sem qualquer resposta das entidades oficiais.

Há sete meses, os armadores de pesca da Fuzeta, apoiados pela Câmara de Olhão, chegaram a ser recebidos pela Comissão de Agricultura e Mar (CAM) da Assembleia da República, onde manifestaram a sua preocupação com o assoreamento e solicitaram a intervenção dos deputados para que o problema seja rapidamente resolvido.

Na altura, os membros da CAM garantiram que vão pedir ao Governo uma intervenção urgente na barra da Fuzeta, mas até hoje nada avançou. Por isso, os armadores dizem-se “cansados das respostas negativas das diferentes entidades responsáveis pela barra e cais da Fuzeta”.

“Risco enorme” para a navegação

Já em abril deste ano, a Câmara de Tavira e os pescadores alertaram o Governo para o perigo que o assoreamento da barra e dos canais da Ria Formosa representam para a navegação, exigindo a reposição urgente das condições de navegabilidade.

Segundo o presidente Jorge Botelho, as dragagens são urgentes para prevenir um “risco enorme” que existe atualmente para a navegação marítima. Em janeiro, um pescador lúdico morreu devido a um acidente provocado pelo assoreamento da barra.

Em suma, os autarcas e os pescadores locais alertam que algumas barras da ria Formosa já estão “muito perigosas” e arriscam-se a ficar não navegáveis a breve prazo.

Nuno Couto/JA

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