REPORTAGEM

Atletas treinam em casa mas correm na rua

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Apesar do confinamento obrigatório, os atletas residentes no Algarve continuam a treinar, em casa e na rua. Mas, pelo menos enquanto não houver perspetivas para a saída do isolamento social, nem calendário para o regresso às competições, o ânimo não está a ser o mesmo do costume. O JA falou com oito atletas portugueses, profissionais e amadores, residentes na região e quis saber o que fazem, como treinam, de que se alimentam, se continuam com remuneração. Encontrou algum desânimo, mas também muita força de vontade e perseverança. A resiliência é a palavra de ordem

João Prudêncio

Corrida no Parque Ribeirinho

André Vieira, 27 anos, jogador da equipa A do SC Farense

Também do Farense, mas da equipa A, a equipa de bandeira do clube, o médio-ofensivo André Vieira treina agora cerca mais de uma hora por dia. Na rua, no Parque Ribeirinho de Faro, corre durante 40 a 50 minutos, quase sempre na companhia de um colega.

Mas nem só de rua vive o treino de André Vieira. “A equipa técnica deu-nos um plano para treinarmos sozinhos, em casa, além de ir correr à rua. Faço bicicleta em casa, pesos e elásticos”, enumera o profissional de futebol, sublinhando que “tem que haver muita vontade própria neste momento”.

“Estou com muitas saudades de treinar, de estar com a equipa, ir para os jogos”, justifica o jogador que, tal como os demais colegas, não se pode queixar de falta de pagamentos. “Nós temos mantido as nossas regras, não paramos, e o presidente cumpre”.

O acompanhamento do clube não se limita ao plano de treino. Também na alimentação, o nutricionista do clube orienta os jogadores: “Neste período, com a alimentação temos que ter mais cuidado. O nutricionista manda as refeições. Não podemos comer muita gordura, muito pão, batatas fritas, carnes com gorduras”.

Receber exercícios por e-mail

Tiago Batista, 21 anos, jogador e capitão da equipa B do SC Farense

Também do SC Farense, mas do futebol de 11 (equipa B), Tiago já vai no seu segundo plano de treinos, ambos enviados para o seu correio eletrónico pelo clube.
“Não tínhamos a certeza se o campeonato ia voltar ou não, então temos estado sempre a treinar. Não podia parar porque o futuro era uma incógnita”, salienta o médio-defensivo.

Afinal, a época, na 2ª divisão distrital, parou mesmo. “Parou e ficámos um pouco frustrados, porque somos a única equipa do País que não empatámos nem perdemos um ponto. Fizemos 19 jogos, tivemos 19 vitórias. Dezoito para o campeonato e um para a taça de sub-23 do Algarve. Estávamos em primeiro”. Em primeiríssimo, com os 18 jogos ganhadores, Tiago nem se lembra dos pontos com que a equipa contava.


Quanto ao seu dia-a-dia em contexto pandémico, Tiago treina todos os dias: “Corro 25 minutos, paro, alongo, faço os exercícios, faço o plano que o Farense me mandou. Depois volto a correr mais cinco minutos, com mais intensidade”, descreve o atleta, que como outros futebolistas se queixa da falta da bola e do convívio com os colegas.

Futebolista amador, trabalha quatro dias por semana numa loja de sapatilhas, em Faro. Já está em casa, mas vai começar o lay-off. Nem no trabalho como vendedor nem enquanto futebolista se queixa de pagamentos. O SC Farense cumpre.

Sem bola custa muito

Pedrinho, 34 anos, jogador de futsal no Farense SC

“Tenho saudades da alegria que o desporto me proporciona. Das amizades com quem partilhamos o balneário”. Categórico, Pedro Martins – conhecido no mundo do futsal como Pedrinho – confessa algum desânimo, às vezes frustração, por ser obrigado a fazer exercício sem bola e treinos sem objetivos imediatos: “Tenho saudades da bola, treinar individualmente sem bola custa muito”, enfatiza.


Mas obriga-se a treinar, duas horas por dia, três vezes por semana: sacou um plano de treinos do telemóvel e sempre que não está a trabalhar – é canalizador da empresa municipal de águas Fagar, em Faro – faz os seus abdominais, as flexões, quase sempre na rua. E corre, corre sempre. A estrada de acesso ao cais comercial da cidade e a mata do liceu são os seus lugares de treino.


Quanto ao campeonato, ficou lá atrás: “Estávamos na segunda divisão nacional e como não somos profissionais ficou a classificação que estava quando se interrompeu a atividade. Ficámos em 6º lugar, num conjunto de 12 equipas”, explica Pedrinho, há três anos no Farense, para quem o futsal é bem mais intenso do que o futebol de 11: “Ou se ataca ou se defende, não há bolas a meio campo”. Tal como acontece no confinamento do seu mundo de agora. Ou se treina, ou se pára. E Pedrinho não pára.

Ligados por WhatsApp

Guilherme Morais, 24 anos, jogador da equipa principal de futebol do SC Olhanense

“É difícil manter a motivação ao mesmo nível todos os dias, mas depois lembramo-nos como temos uma grande equipa e pronto”, resume Guilherme Morais, médio campista da equipa principal do Olhanense, ao tentar explicar o que o motiva e lhe dá forças para se manter à tona neste período complicado.


Sim, o jovem e os demais jogadores continuam a treinar. Guilherme demora entre 1 hora e 1 hora e meia nos seus exercícios diários, que pratica à tarde: “Fazemos exercícios funcionais . Temos um plano de exercícios do clube. Dá para fazer indoor e outdoor. O plano sugere corrida e isso tem que ser outdoor, mas faço também em casa”.


Ligados por WhatsApp, Guilherme e outros jogadores recebem um plano alimentar enviado pelo nutricionista do clube, mas alimenta-se sobretudo da esperança de que a boa época do Olhanense no campeonato de Portugal seja resolvida através de play-off: “Todos estamos à espera da decisão do play-off. Não damos o campeonato como terminado, damos sim a fase regular como terminada, mas a partir do momento em que a Federação indicou que haverá duas equipas que vão subir, a única forma justa e aceitável será o play-off. Entre os primeiros e segundos de cada uma das quatro séries. Quando chegar a altura de jogar, fazemos períodos de quarentena. Quem não apresentar sintomas, compete”.

Treinar no jardim

Hélio Pinto, 36 anos, jogador da equipa A de futebol do Louletano

Vilamoura, onde mora, é o lugar ideal para Hélio Pinto fazer exercícios de rua. E é isso que faz o jogador do Louletano: aproveita a aprazibilidade da urbe, do jardim grande e dos campos de golfe, e para desfrutar do treino diário, em que despende boa parte dos seus 45 minutos a 1 hora de manutenção diária.


“No início deste período, o treinador mandava o programa para casa, que eram exercícios parados, abdominais, flexões. Felizmente, tenho condições para fazer isso em casa”, afirma o centro-campista.
Mas as boas condições do presente não fazem esquecer as excelentes condições do passado: “Sinto a falta da bola e do balneário, e da adrenalina dos treinos e do jogo. Em condições normais, temos a bola, temos o objetivo de chegar à baliza e marcar golo”.

Com um investimento imobiliário e uma academia física em Lagos, o jogador que retornou ao Algarve no ano passado considera-se “só futebolista”: “Sempre vivi do futebol”, afirma o médio do Louletano, que disputa ainda o campeonato nacional de Portugal, antiga 3.ª divisão.

Correr no sal

Ana Cabecinha, 35 anos, atleta (corrida e marcha) do Clube Oriental de Pechão (ao lado, o treinador Paulo Murta, 51 anos)

Com três jogos olímpicos na carreira (ainda quer chegar aos cinco – Tóquio em 2021 e Paris em 2024), e um percurso recheado de êxitos, sobretudo enquanto atleta internacional de marcha, a profissional algarvia Ana Cabecinha não tem parado por estes dias difíceis. Mas não é a mesma coisa.


“Tenho uma passadeira e uma bicicleta estática em casa, consigo fazer os treinos na passadeira, correr e marchar. Mas claro que não posso fazer os mesmos quilómetros semanais e diários que fazia na rua. O impacto de uma passadeira é muito superior e tento manter as minhas rotinas de treino, mas claro que mudou muito”.


Mas a rua permanece nos seus treinos. Sem muita dificuldade: “Tenho conseguido fazer alguns treinos na rua, porque estando longe do centro de muitas pessoas, consigo sair e não me cruzar com pessoas e vou para sítios onde sei que não vou encontrar pessoas. Moro fora de uma grande cidade, o que é uma vantagem”, enuncia a atleta do clube do Pechão, que por estes dias reside em Vila Real de Santo António. Uma vez por semana é acompanhada pelo treinador, Paulo Murta.


“De manhã faço seis ou sete quilómetros isolada dentro das salinas. À tarde evito sair, faço passadeira ou bicicleta em casa. Mas continuo a treinar de manhã e à tarde, com as minhas rotinas normais, de manhã rua ou passadeira e à tarde sempre em casa”.


Mas reconhece que foi difícil a adaptação ao treino sem objetivos imediatos: “Manter autodisciplina foi muito complicado, principalmente naquelas semanas iniciais, em que estávamos a preparar as competições e tínhamos sempre esperança de que a próxima competição já não seria cancelada. Quando vejo as competições a serem canceladas, os jogos a serem adiados para 2021, houve ali uns dias em que eu estava completamente de rastos, sem saber para o que estava a treinar. Obrigava o meu corpo a levantar da cama e ir treinar, mas a minha mente estava de rastos. Tive que recorrer ao psicólogo que trabalha connosco e aí sim manter as rotinas”, relata a atleta internacional.


”Não sabemos se vamos competir esta época ou este ano, mas vamos mantendo a forma”, observa, calculando que corre agora menos 30 a 40 km por semana do que em condições normais. “Antes fazia 130 a 140 km por semana e agora estou a fazer 100 km”.


Quanto a honorários, a quebra foi grande no que respeita a prémios de competições, mas a atleta continua a receber salário da Câmara de Olhão e do Comité Olímpico Português.

A má onda de um edital

Inês Martins, 25 anos, ginasta no Clube Educativo e Desportivo de Faro e ginasta (trampolim) no Clube de Surf de Faro

“Começou pelos trampolins, mas ultimamente tenho tido melhores resultados e umas experiências diferentes no surf”, sublinha a jovem farense Inês Martins, que começou por ver o ginásio fechado e acabou com a Polícia Marítima a avisá-la, em plena praia, que por determinação da Capitania de Faro estava proibida a prática de desportos náuticos.


“No início até decidi mudar para a praia para evitar deslocações, mas poder praticar o meu desporto, visto que era um desporto individual num meio grande, sem contacto com outras pessoas. Mas depois o edital saiu, quando começou o estado de emergência.


Agora, Inês está confinada e conta com as limitações inerentes a essa condição: “Treino a parte física em terra, treino de cardio, força. Faço-o no quintal. Tenho uns elásticos de pilates que permitem fazer exercício com alguma resistência e tenho pesos”, conta a jovem médica, que calcula despender entre 1 hora e 1 hora e meia nos seus exercícios.


Não esconde a sua frustração com as atuais condições de isolamento social e a desmotivação a que conduzem: “Praticando um desporto de competição, o objetivo é fazer as competições e irmos às competições e vermos em que nível estamos e o que se passa no resto do mundo do nosso desporto é que nos motiva”.


Ainda por cima, tudo acontece numa altura em que, nos trampolins, já tinha começado a época e Inês tinha conseguido o apuramento para os campeonatos da Europa, que deveriam realizar-se no início de maio. Foram adiados.

Competir na açoteia

Filipa Oliveira, 15 anos, campeã nacional de karaté, na categoria de cadetes, Clube de Karaté de Olhão

É na açoteia da sua casa que a jovem karateca Filipa Oliveira terá a sua próxima competição. “A Federação Mundial de Karaté está a promover competições online e eu vou participar. Filmamos os kata , enviamos para a organização e vários árbitros a nível mundial vão avaliar esses kata. Já vários atletas estão a participar. Vamos filmar num espaço onde não haja barulho e que tenha espaço para fazer as técnicas. Vamos para a açoteia da minha casa, limpamos e filmamos”, despacha Filipa, cinturão castanho.


Habitualmente, a adolescente participa em quase todos os campeonatos que existem no País, nas modalidades de Kata e Kumité (luta). Atualmente é campeã nacional de cadetes (faixa etária de 14/15 anos) em 2019/2020, em kumité.


Quanto a treinos, Filipa reconhece a desmotivação, mas não deixa de se exercitar. “Isto é stressante, não podemos competir, nem conviver e há uma grande desmotivação. O meu mestre manda-me exercícios para fazer. Faço uma parte em casa e outra numa garagem, com um tapete de karaté. Faço também corrida em espaço aberto”.

*

Hotel Casablanca

16 atletas da Ucrânia “retidos” em hotel de Monte Gordo

Um grupo de 16 atletas ucranianos estão alojados no Hotel Casablanca desde 31 de março, devendo aí ficar até ao final de abril. São os únicos clientes da unidade. Os atletas, que se encontram na zona desde 22 de fevereiro, ficaram retidos em Monte Gordo devido ao facto de as fronteiras terem sido fechadas, não podendo regressar à Ucrânia.


Os atletas estavam no Yellow Praia Monte Gordo, mas tiveram que ser transferidos para o Casablanca no último dia de março, devido ao fecho daquela unidade hoteleira.


“Vão ficar aqui até dia 30 deste mês, depois vamos fechar. Mas eles já têm voo marcado para dia 1 de maio”, disse ao JA o diretor do Hotel Casablanca, Carlos Fernandes.

Ana Ryzhykova, campeã olímpica


Campeã olímpica dos 4×400 metros estafetas e especialista nos 400 metros barreiras, a ucraniana Ana Ryzhykova, 30 anos, explicou ao JA a situação em que se encontra: “Eu estava a treinar no campo, em VRSA quando fecharam as fronteiras dos países. Não podemos viajar para o nosso país. Se pudéssemos regressávamos imediatamente, mas ainda não é possível. Estamos aqui desde fins de fevereiro, talvez dia 22”.


Contudo, a atleta diz-se muito feliz com esta possibilidade de treinar. “Treino entre Monte Gordo e Vila Real de Santo António. Treino no parque florestal”.




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