OPINIÃO

AVARIAS: A atualidade como ela me parece ser

Fernando Proença
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA
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Olho o noticiário da CMTV. Algumas vezes navego nestas águas, convém saber se os acidentes de automóvel estão a ganhar ao Covid-19: estão. Os jornalistas dos directos do canal têm, quase todos, aquela voz monocórdia de quem conta uma história a uma criança a ou um velhote, pronunciando todas as sílabas com um vagar de quem não tem a absoluta certeza que o ouvinte esteja na posse de todas as suas faculdades. Mas existe, pelo menos, um jornalista que cobre os acidentes e crimes na zona de Guarda/Viseu que fala exactamente (ejátamente, no uso dele) como se faz na zona, o que é uma pedrada no charco da normalização, em que todos pronunciam o português como se tivessem nascido em Massamá/Amadora. Ainda por cima, os tais jornalistas conseguem aguentar uma peça de cinco minutos à força de repetirem a mesma informação, pelo menos umas sete vezes, mas dando sempre a ideia que fornecem mais informação.

A TVI é uma CMTV com mais estudos, mas com a mesma tendência para o escândalo. Por ela, soubemos que dos primeiros vinte e cinco infectados com Coronavírus, quinze são de Felgueiras (ou mais concretamente, como se diz nos directos da estação, da povoação de Idães). Houve a intervenção de um jornalista da estação que entrevistou o presidente da Câmara perto da Igreja do lugar (suponho que nada em Idães esteja longe da igreja mas não conheço o caso vertente). Pois não é que o directo chegou ao meio dia exacto, hora em que, a par da voz do jornalista, se começou a ouvir o sino da igreja: diria melhor, ouviu-se o som do sino da igreja, forte e poderoso, e por baixo, a voz do jornalista, tudo porque o sino não era daqueles que tocavam as doze badaladas, mas dos que resultam de um investimento da diocese local na elevação espiritual das almas locais, por via da audição de uma composição completa de sino, carrilhão, gravação, ou lá o que seja. Azar.

Tenho para mim que o facto de o maior surto do Covid-19 ter surgido, na Europa, em Itália (mais concretamente – é a segunda vez que uso a muleta no texto; por esse facto peço, aos meus quatro leitores as mais sinceras desculpas), tem vindo a tirar pressão sobre a doença, pelo menos no nosso cantinho tuga, não sabendo se isso é bom ou mau: o futuro a Deus pertence (mais um momento religioso no Avarias). Uma coisa séria teria sido o foco ter sido detectado num país como a Albânia, Roménia ou no Kosovo, ou fora da Europa, na infecta Guiné Bissau (por enquanto só exportam golpes de Estado). Se assim tivesse sido, já estávamos todos escondidos debaixo de uma mesa, encerrados em casa, com medo do terror que aí vem, a esgotar prateleiras de supermercado. Assim não, vindo de Itália o vírus até parece uma coisa fina. “…o vírus, de certeza que o apanhei em Milão, na Via Monte Napoleone, quando estava a olhar para uma mala Louis Vuitton. Não a quis trazer porque me tinha esquecido cartão de crédito no hotel. Foi castigo…” diz o industrial do calçado, que dias depois terá infectado meio vale do Ave.

Fernando Proença

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