AVARIAS: A chamada pescada de rabo na boca

Fernando Proença

Como previa estamos em velocidade de cruzeiro até às próximas eleições, no que respeita aos debates pré-eleitorais. Todos (pelo menos os que vi) prometem tudo, como vender mãe e pai para abate, para tentarem ser eleitos. Menos Rui Rio que meteu o pé na argola (voluntária ou involuntariamente) ao dizer que não tinha interesse em ser deputado. Mesmo que ele tenha afirmado o que a grande maioria pensa, no sentido de que o seu grande objectivo é governar o país e não estar sentado no hemiciclo, é mais uma daquelas coisas que até parece que foram ideia de António Costa para se perpetuar no poder. Em geral, os portugueses, com vossa licença, têm uma razoável ideia sobre o valor dos políticos concorrentes a uma qualquer eleição: como as pessoas em causa, são hoje cada vez menos capazes de administrar o país, a resposta cifra-se em cada vez maior abstenção. Não devia ser assim, segundo a comissão nacional de eleições, mas é o que se arranja. E, segundo este princípio, se todos tivéssemos uma melhor memória, muito poucos iriam exercer o seu direito de voto, por muito que isso nos custe. As pessoas que, em geral, apresentam uma elevada consciência política, costumam gozar com aquela frase muito portuguesa, “comem todos da mesma gamela”: dizem que é a conversa do povo mal informado e embrutecido, que desconfia dos políticos de uma forma pouco esclarecida. Penso que não será exactamente assim; não comem da mesma gamela, mas sim, cada um come da sua, o que é, pelo menos, muito mais higiénico. A ideia que tenho, continua a ser, que dentro da lógica que lhes apresentei o que é hoje a proposta de um partido da dita direita, amanhã pode ser da falada esquerda. E que uma proposta contra que se votou, há quatro anos, pode ser hoje dada como sua. Defendem-se, os autores, dizendo que é uma “questão de conjuntura”, como se tudo o que nos afecta fosse de uma contingência total. E esta é uma das razões do descrédito da classe, porque dá a impressão (para alguns errada, para cada vez mais, certa), que existem muito poucas diferenças substanciais entre os políticos a concurso, o que não será necessariamente mau, mas reduziria o material votável (pessoas, programas e animais) passível de votação, a dez por cento. Além de que não percebem que, enveredando pelo caminho do que “hoje é verdade amanhã é mentira” e vice-versa, mais cedo ou mais tarde serão encurralados nas suas próprias palavras. Por isso é que os governos que patrocinam milícias que substituem a justiça, geralmente lenta e com resultados que não reportam o que muitos esperam, acabam por ser reféns da sua própria aleatoriedade, sendo chantageados pelos mercenários que contrataram. Os caçadores de hoje serão os caçados de amanhã. E isto vale, cada vez mais para os políticos.

Fernando Proença

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