OPINIÃO

Avarias: A TV e o JJ

TELEVISÃO
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Pareço um velho da B Sad mas, mesmo assim mantenho que se foi embora a televisão – generalista – das antigas e com ela a ideia de renovação estacional se é assim que me posso expressar. Não que se tenha deixado de ver essa renovação (uma certa renovação) outonal dos programas, mas para nos apercebermos disso temos que nos munir de uma lupa. Antigamente o Verão era o território, por excelência, dos programas tolos, depois chegava o Outono e com ele, lá nos tentavam convencer por novas propostas. Agora temos programas tolos o ano inteiro e não nos queixamos.

Parece-me que o mais próximo disto é a secção de frutas e vegetais dos hipermercados: antes, a laranja aparecia no Inverno, a uva no Verão e assim sucessivamente. Agora, temos tudo o ano inteiro, mas com uma qualidade tal, que me deixa quase a certeza existirem venenos no mercado que podem fazer pior, mas de certeza sabem melhor. Escrevo isto só para vos confessar que estou num dos lados da barricada, mas até hoje ainda não sei se do certo.

Certa crítica, agora muito influente, porventura porque – alguma – terá uma agenda mais ou menos escondida, diz o seguinte: antes existiam uns programas feitos pelas elites para as elites, que pretendiam elevar a cultura do povo (dão como exemplo a BBC) e outras que não (os exemplos são tantos que prefiro não os mencionar). Ora, o povo que paga a mensalidade das suas boxes tem o direito, ainda segundo esta corrente de pensamento, a ser ungido pelas luminárias que se deliciam a pensar que aqueles programas de entrevistas, em que o entrevistado chega a mais ou menos a meio e já está a chorar baba e ranho, fazem parte de uma ideia geral de bom gosto que, não obstante, me escapa. Isso chama-se dar ao povo o que o povo gosta. Não sei o que lhes diga, apenas vejo filmes, séries e algum desporto, mas tenho ideia que se podia fazer algo mais, pelo menos no serviço público.


Um dia vão fazer justiça a Jorge Jesus. Ninguém, no panorama nacional da sua área, tem tão poucos filtros, que lhe permita fintar as regras mais básicas da convivência, e com essa pequena torção abrir um mundo novo à discussão. Desde a forma como conjuga os verbos ter, fazer e jogar (“tu jogas com dois trincos”, falando directamente para um jornalista que não conhece de lado nenhum), até às ideias e opiniões sobre tudo e mais um par de botas, fazem de JJ um caso único em Portugal. Até a forma como explica por á mais bê, que os méritos são dele e as culpas dos outros mete respeito. Já o ouvi vezes sem conta (desde que envolvam maus resultados e apenas nessa situação) lembrar que “não controla tudo”, o que é, como os meus quatro leitores a pura da verdade, mas não, como sublinho eu, apenas quando se perde. Não percebo o que os jornalistas, sempre à procura de uma escorregadela para entalar os fracos (e JJ é-o, mas disfarça bem) não aproveitam para lhe lembrar, que o jogo em que ganham seis a zero, não é controlado inteiramente pelas peneiras do treinador.

Fernando Proença

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