OPINIÃO

AVARIAS: Aqui vai um trocadilho; estou desconfinado que vem aí calor

Fernando Proença
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA
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1- No princípio eram só aprendizes de Greta Thunberg que apareciam por aqui e ali, sempre com a pistola apontada à civilização ocidental (tem costas largas, mas não convém abusar da sorte), a dizer o bem que está o ar, o maravilhoso que se encontra o céu azul, ao ficarmos em casa e de tudo ter encolhido como o castelo de cartas em que se desfez o comunismo, depois dos anos noventa do século passado. Depois disso (não tão depois, mas depois) veio a tropa fandanga dos filósofos e aprendizes de feiticeiro que criaram uma narrativa optimista sobre a qual encontraremos o caminho para a nossa salvação: agora (no pós Covid), vamos encasquilhar que há uma perpesctiva positiva em permanecermos mais em casa. Para essas trombetas do paraíso, vamo-nos ajudar muito mais uns aos outros, respeitando as diferenças, auxiliando velhotes a crianças a atravessar a estrada. Como se tudo isto viesse, mesmo na altura certa, para nos obrigar a olhar mais para dentro de nós, criando as condições para fazermos uma ruptura com as práticas individualistas e de consumo imoderado que mantínhamos. Moral da história: ainda bem para a humanidade que o Covid – 19 faz parte do nosso dia-a-dia. Terá sido a mão de alguém muito acima de nós, que sabia da pouca vergonha que por aí grassava e que olhou por nós, pecadores. Tenho muitas dúvidas, mas daqui por um tempo voltamos a falar.


2 – Outro dos lugares-comuns deste tempo de Primavera – Verão de 2020 é a frase engatilhada, “as coisas nunca mais vão ser como antes”. Não tenho bolas de cristal, nem uma especial capacidade para ver o futuro, mas não vejo como podemos ter tantas certezas assim. Com a chamada gripe espanhola (a partir de um vírus parecido ao actual Covid-19, segundo sei), que afectou o mundo a partir de 1918 e que se revelou extremamente agressiva, deixando um rasto de milhões de mortos, parece que não demos um trambolhão (em termos civilizacionais) tão grande. Para mais, tínhamos uma medicina menos capaz e os ventiladores ainda não se compravam a granel na China. Parece, antes, que a ideia que já tivemos (do progresso material, das luzes), até aos anos setenta está morta e enterrada e, a partir de agora, não há forma de chegar ao que já fomos. Entraremos num tempo em que não vivendo a vegetar, não mais conseguiremos sentar o rabo num restaurante, sem olhar para todos os lados, como quando se conta uma anedota racista. Tenho dúvidas.


3 – O tempo de se estar em casa vai-nos trazendo alguma televisão com que, há três meses, não ousaríamos experimentar assistir. Mas as séries que a RTP2 passa, aos dias de semana, depois das dez da noite, continuam, em geral, muito visitáveis. “Aber / Bergen”, que relata o dia-a-dia de um escritório de advogados na norueguesa Bergen já vai na segunda temporada e é um momento de interrupção do maremoto que é a produção norte-americana. Aber é o advogado excêntrico e cabeça de cartaz ao redor do qual gravitam os casos (e a vida pessoal) que se vão resolvendo, ou não, os casos com gente comum cheia de defeitos e uma ou outra virtude. Gosto destas séries que se afastam dos estereótipos (e que criam outros estereótipos, mas isto levava-nos longe) e que são, porventura mais adultas, o que nem sempre é bom mas no caso vertente, serve.

Fernando Proença

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