AVARIAS: As boas séries da RTP2

Fernando Proença

Pensavam os cínicos, cépticos (versão light do mesmo ponto de vista) e conservadores (segundo a definição de Roger Scruton) que, com o avançar dos tempos, em vez de alargarmos a nossa capacida- de de escolha iriamos vê-la encolher, como um par meias de lã pura lavado em água quente. Essa ideia é replicada em centenas de outras questões que nos afectam, tendo como principais causas a sanha normalizadora do capitalismo (mesmo que nos dê a impressão contrária), as redes sociais; a cada vez maior homogeneidade de pensamento da maior homogeneidade do não pensamento, e os gatinhos fofos na internet. Por isso, posso lembrar que nos meus distantes tempos de juventude, depois dos anos setenta, e apenas com uma sala de cinema público e uma privada, passava muito melhor e mais diversificado cinema em Olhão do que hoje numa cidade média/alta portuguesa, só para lhes dar um exemplo. Se à segunda passava Kung-Fu na terça podia ver-se Godard: foi assim durante muitos anos. Agora, mesmo numa cidade como o Porto e com uma catrefa de salas de cinema disponíveis, não se vai além de sete filmes em que três são desenhos animados, outros três de heróis da Marvel (atenção que não tenho nada contra uns e outros) e o sobrante é uma versão idiota de um filme que nos anos setenta já era mau e não melhorou com a nova leitura. Quero então dizer (e já o disse antes, neste espaço) que as séries (algumas das séries) que a RTP2 passa, principalmente no horário das dez da noite, quase nunca norte-americanas ou mesmo anglosaxónicas, são um bálsamo para os meus olhos e ouvidos, às vezes, só pelo facto de me darem uma folga do inglês. Mesmo que as estruturas narrativas (se é assim que se pode chamar à forma como se conta uma história) não se afastem do que é hoje o normal, lá vamos catrapiscando ao virar da esquina, certas palavras, actos e omissões que nos dão uma perspectiva lateral do que podem ser outras formas de contar uma história. A série “Restaurante” de origem sueca (no momento em que lhes escrevo, vai no final da segunda temporada) é um dos bons exemplos do que lhes acabei de contar e apresenta a história de uma família à volta de um restaurante, desde o período antes da segunda-guerra até, momento em que lhes escrevo, que reporta a mil novecentos e sessenta e dois. Está lá tudo; a penúria do período da guerra, o êxito económico dos anos cinquenta em que a prosperidade parecia não mais acabar, a construção da social-democracia, o Estado-Providência. E depois as relações pessoais e profissionais, aqui muito conseguida, porque não se fica pela superfície, mergulhando nos mistérios insondáveis da natureza humana, com bons, maus, assim-assim e os que podem ser simultaneamente a três coisas. Além de todo o cardápio apresentados nas linhas anteriores, o “Restaurante” equilibra a pedagogia de mostrar como o mundo executou o movimento de rotação lá para os lados das terras escandinavas com as relações pessoais das personagens, que não será pedir pouco. Até quinta.

Fernando Proença

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