AVARIAS: As coisas são o que são

Fernando Proença

Um ex-internacional de futebol é o quê? Será um jogador de futebol (de andebol, ping pong ténis de mesa, etc.) que jogou em tempos na selecção nacional e pode voltar a usar a camisola das quinas (o Avarias também tem direito aos seus lugares comuns), ou, pelo contrário um antigo praticante, hoje retirado, e já sem hipóteses de nova internacionalização? Independentemente do valor do prefixo em causa (agora estamos a navegar na área da grande gramática do português contemporâneo), ser-se internacional por um país não é condição definitiva. Uma pessoa pode ser convocada para representar o país numa ocasião e nunca mais o ser; isso fá-lo ex-internacional? Mas essa não é a utilização que se dá hoje à palavra, pelo menos quando se fala de um antigo jogador que, entretanto, arrumou as botas.

Penso que o uso da palavra facilita duas questões: a primeira, porque é fácil de dizer. A segunda, porque é uma palavra mais inclusiva (se é que há graus na inclusividade, que é uma palavra que atira um gajo abaixo, para nunca mais se levantar) do que afirmar, que a pessoa em causa é um antigo jogador. O busílis da questão está mesmo no “antigo” que para os nossos jornalistas deve fazer lembrar jogador (no caso do futebol) com balizas às costas e botas com travessas em vez de pitons. O “antigo” está em baixa e nem percebo muito bem o que estas pessoas pensarão, por exemplo dos museus, filmes produzidos antes de 2005 e da receita tradicional de leitão à Bairrada só porque nem uns nem outros entram em filmes da Marvel, pelo menos a fazer fá na opinião abalizada de Martin Scorsese.

Escrevo enquanto os nossos vizinhos espanholitos decidem (ou não) o futuro. Estas eleições estão para os comentadores como aqueles jogos entre duas equipas de futebol de valor muito próximo do campeonato holandês, em que, por muito que se esforcem, os tais comentadores não conseguem dizer quem vai ganhar e como jogam, que é uma coisa que, ao cabo e ao resto, os irrita solenemente. Tudo, porque só uma coisa é – quase – certa: daqui por seis meses vão andar a tratar os mesmos problemas: só porque estão entalados com os nacionalistas catalães (mais) e bascos (menos). O ponto importante será tudo isso não ser um problema apenas deles, porque uma pequena constipação na economia espanhola é um médio/grande problema pulmonar para a nossa. A Espanha é um grande importador dos nossos bens e produtos e isso pode ser uma chatice séria. Entretanto os nossos comentadores andam à nora, repetindo que previsões só depois da formação do governo ou novas eleições. Só não consegui perceber a conversa de uma jornalista portuguesa que referia como grande problema da atual Espanha, o desemprego que terá crescido muito ultimamente. Percebo a preocupação da jornalista, ninguém gosta de ver subir o desemprego, mas em termos absolutos essa é a realidade da nossa vizinhança. Desde há muitos anos.

Fernando Proença

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