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OPINIÃO

Avarias: Coisas do jornalismo

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Bem podem os jornalistas – uma grande parte – falar sobre o trabalho, o grande papel que acabam por ter na consolidação da democracia, que a maior parte das pessoas, considera-os (ao nível da fiabilidade e da qualidade) ao nível dos políticos: e isso, digo-vos, neste primeiro quartel do século vinte e um, não é uma coisa boa, ponto final. Não sei de quem é a culpa, se das redes sociais, se do bom tempo, mas a verdade tem que ser dita: da fama não se livram.

Nos diferentes noticiários dos canais generalistas, as notícias, além de aparecerem com o mesmo alinhamento, não mostram grandes diferenças, mesmo nas situações em que deveriam. Dou-lhes um exemplo: a Iniciativa Liberal não foi autorizada a participar no desfile do vinte e cinco de Abril (o legítimo, o da Bayer. Sempre a dar tiros no pé esta esquerda tuga…), e daí organizou outro. Pelo menos em noticiários de dois canais concorrentes, ouvi que tinham estado presentes mais do que cento e cinquenta pessoas.

O que dirá o livro de estilo destas estações, quando se fala em números, quase, exactos? A mim, mais de cento e cinquenta pessoas parece-me igual aos saldos; até cinquenta por cento de desconto, em grande, para que todos vejam. Afinal vamos observar a coisa com atenção e existe um produto com cinquenta, três com quarenta, dez com um extraordinário desconto de vinte por cento e quinze mil sem desconto.

Mais de cento e cinquenta pessoas, podem ser cento e cinquenta e uma, até um total de (a Iniciativa Liberal fechava para obras) dez mil? Como no ataque dos índios ao forte do general Custer. Avisa a sentinela.” Vamos ser atacados pelos comanches, aí vêm eles em grande cavalgada.” E quantos são?, perguntou o general. “Mil e um”. Como sabes?, retorquiu (a palavra fica sempre bem nestes diálogos) o general voltando à carga (aqui estou a forçar a nota. Uma imagem gasta, diríamos, como a muito usada hoje, “O crime dispara em Valpaços”). Responde a sentinela: “meu general, vem um à frente e para aí mil, atrás”.


E o que dirá o livro de estilo sempre que há um acidente? A moda, agora, é lembrar o número de crianças envolvidas e isso não me parece nada bem, dá-me toda a ideia de que estão a forçar a nota, a apelar à lágrima. O último que vi e ouvi, foi no terrível acidente do metro da Cidade do México em que caiu um viaduto e todos os canais, repisaram a notícia, “há pelo menos xis mortos, não sei quantos são crianças”. Não percebo, num acidente daqueles umas vidas valem mais do que as outras? Ainda se fosse um episódio de guerra, um ataque terrorista com autores, onde se veria o seu nível de maldade, mas num daqueles acidentes, em que não há uma causa directa (a não ser a má construção), porque razão lá vem o número de crianças? Como a dizer; velhos e de meia-idade podem lerpar (devem ter que expiar pecados), já cá andaram mais tempo, adeusinho. Como os que lamentam os mortos por COVID. Os que morriam, de ataque de coração: bebeste e comeste mais que a conta, merecer não mereces, mas era de esperar. Vamos cada vez melhor.

Fernando Proença

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