OPINIÃO

AVARIAS: Fui à balança e não gostei do que vi

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Acaba o ano e começam os balanços. Não sei se da idade, se do excesso de imagens + notícias que correm em tudo o que é lugar, vou tendo cada vez menos a percepção das datas, das passagens do tempo, assim compartimentado por anos, meses etc… Não me interpretem com ligeireza, eu sei que hoje, dia em que saiu o jornal para as bancas, estamos a seis de Julho de 2017 (ando com piadas fracas); o que eu quero demonstrar é que submersos que estamos por notícias (um dia hão-de vir no papel higiénico, assim não temos necessidade de levar um livro para ler no wc), não damos pela passagem do tempo. Melhor: dar damos (até de mais), mas não temos claro as pausas entre trabalhos, as diferenças na luz dos dias, o tempo da chuva, do frio. Por tudo isso (e mais um par de botas) a culpa estende-se por várias zonas da vida, como por exemplo a própria existência de toda a fruta durante todo o ano (obrigado fretes de navios cada vez mais baratos). Tudo à venda em supermercados, lado a lado uvas e laranjas, não respeitando datas nem estações, confunde-me a cabeça. Não estou a fazer juízos de valor, tudo tem o bom e o mau (o da fruta está geralmente escondido no fundo da caixa), mas, convenhamos que existe demasiada informação que não conseguimos colocar, quer na importância quer no tempo. Aparentemente estou a contradizer-me; num mundo destes, faria todos o sentido assinalar o que é realmente marcante, por isso os balanços deviam ser, mais que importantes, imprescindíveis. Porém a mim cansam-me, farto de ver dezenas de vezes as mesmas imagens muitas vezes mostradas a despropósito. O excesso de imagens acaba, afinal de contas, por matar o que se pretende mostrar. Lembro-me de ver uma, num dos canais generalistas, a quando do afastamento de Isabel dos Santos da Sonangol. Para ilustrar a notícia passaram umas imagens, que detinham em arquivo, da senhora a entrar por uma porta de um organismo lá do sítio (ou cá do sítio?). Pois enquanto durou o texto que tinham preparado, a dita jovem, entrou por aquela porta (vinte, trinta repetições? Fazem uma peça de quatro minutos com cinco segundos de imagens) numa técnica que a nossa televisão (todas as televisões?) usa(m), infelizmente sem parcimónia.
No meu balanço (tenho direito a um), o ano foi caracterizado (nos chamados canais generalistas) por noites divididas entre a política e o futebol, partindo do princípio de que existe mais em comum entre esses mundos do que possa imaginar. Exactamente por que os portugueses veem a actividade partidária como se fossem adeptos dos clubes (uma pessoa é simpatizante de um partido, independentemente das suas posições pontuais sobre determinado assunto) e não cidadãos críticos da realidade. Por isso adoram ver comen-tadores alinhados com um clube. Sempre é mais fácil saber de que lado hão-de estar.

Fernando Proença

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