AVARIAS: Noite de eleições

Fernando Proença

Escrevo em Domingo de eleições e tenho a notar que votei na maioria das ocasiões (hão-de descobrir que votar faz mal ao ambiente. Sai-se casa de automóvel…) e que o fiz a partir de diferentes premissas: ao princípio, nos anos oitenta, votava num partido porque acreditava no que dizia; a meio da caminhada votei entre o que acreditava por oposição ao que não queria (50%/50%). Agora voto contra o que quero e não em quem acredito, porque acreditar, acreditar, só no pai natal. As televisões estão com umas imagens cheias de gráficos e parece que se espera uma abstenção de mão cheia. Se o mundo fosse um lugar justo, a abstenção devia ser ainda maior (sei que isso não se diz), para ver se os políticos apanhavam um susto. Dois dias depois já não se lembravam de nada e voltava tudo ao mesmo, escândalos, desvios e família defendida. Mas podia ser que ficasse lá alguma coisa, no mais profundo do seu cérebro.

De qualquer modo, com ou sem eleições, realizou-se recentemente em Lisboa, um, designado congressos dos chefes (de cozinha), em que estiveram presentes, como o nome indica (não indica, porque é em inglês, qualquer coisa como “Lisbon Food Week”. Estamos assim: nas nossas lojas, os provadores são agora “fitting rooms” e na Antena 3, existindo uma palavra em inglês, em que existe perfeita correspondência em português, optam pelo inglês), variadíssimos chefes de cozinha de cá e de além-mar. Dei uma vista na internet e pareceu-me tudo aquilo mais aparentado com especialistas numa área qualquer científica, ou venda de aspiradores porta a porta. Vi umas fotos dos participantes e são quase todos magricelas, o que não me parece excessivamente prometedor. Ouvi alguns, convidados para o programa “Prova Oral” da Antena 3 e fiquei impressionado com o clima de concorrência existente. Parece que cozinham para passar à frente dos rivais (rivais na cozinha?), o que é na sua essência uma coisa muito pós-moderna, mais para os domínios da economia ou criação de pombos correio. Também não se inteiraram muito bem do lugar onde estavam. Uma chefe brasileira (parece que reputadíssima), designou o pastel de Belém como um dos dois melhores pratos portugueses, que para não figurar sozinho ainda teve (segundo a entrevistada) a companhia da Água das Pedras (?). No trecho que ouvi do programa referido, também reparei num dos denominadores comuns que já tinha percebido noutras ocasiões: chefes que não passam sem filetes de dourada, dourados em açafrão, em cama disto ou daquilo com reduções de tudo e mais alguma coisa, dão, como resposta à pergunta, “qual foi o prato que mais apreciou nos últimos anos”, a resposta “foi uma couve com feijão feita pela minha avó”. O que demostra que ninguém ultrapassa um astronauta no espaço nem uma avó na cozinha. Que um cozinheiro concorrente é um inimigo, e que o que produzem, altamente científico e especializado, afinal não lhes enche as medidas.

Fernando Proença

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