AVARIAS: O futebol e a História

Fernando Proença

Desculpem começar com o futebol mas tudo o que hoje, nos canais informativos portugueses anda à volta do Flamengo de Jesus, me parece excessivo. Que a Sport TV faça o seu trabalho no Brasil ainda vá que não vá. Que a SIC, TVI e a RTP o façam com a taça dos Libertadores uma noite inteira, mais um autocarro de jogadores a passar nas ruas do Rio de Janeiro é, no mínimo, parvo, mas estamos assim, com as prioridades trocadas. A mesma lógica desses canais é a que leva, por exemplo a Sport TV a dar primazia aos resultados e jogos da estranja, enquanto a nossa segunda divisão (ou jogos da Taça de Portugal em que não entram equipas da primeira) surge em rodapé. O problema é que, depois de aturados – ou não – estudos, descobriram que os tugas desprezam as equipas das sua terras. A televisão e principalmente a net aproximaram-nos da gente do outro lado do Mundo e é com uma facilidade do caraças que podemos ser adeptos, do Lokomotiv de Moscovo, enquanto que o Paços de Ferreira (a menos que tenhamos lá ido comprar uma estante para a sala) permanece como uma incógnita para as gentes a sul do Tejo, só para lhes dar um exemplo. Se uma grande parte das pessoas pensa hoje assim, o que farão as televisões que precisam de mercado? Só que estamos cada vez mais em presença da tão conhecida pescada de rabo-na-boca (embora muito pouca gente conheça hoje o significado da palavra), em que a televisão passa o que as pessoas querem ver, sem acrescentar rigorosamente mais nada. E, para o “Avarias”, não se trata de fazer o papel de grande farol da cultura, como se coubesse à televisão o dever de substituir a escola ou coisa parecida, que não pode e, principalmente, não deve. Nem oito nem oitenta. Apenas um bocadinho mais de decência.

Vejo, pelo canto do olho, um programas sobre aviões de combate, com imagens da Segunda Guerra Mundial. Existem dois ou três canais cabo que fazem bem o papel de recuperadores de imagens e histórias do passado. Muitos deles (a maioria) vale mesmo a pena, se formos cuidadosos com algumas das questões de princípio. A primeira questão é de forma: como manda a sapatilha fazem sempre todos os pos-síveis para esticar a massa. Por isso parece que vemos dois ou três episódios (quase iguais) dentro do mesmo, porque as imagens são repetidas: são as regras e servem para não perdermos pitada e encher um ou outro chouriço. Depois temos uma questão de fundo: aqueles programas (tal como os romances históricos, com pontos de contacto com a realidade) não se podem substituir à História. São muito interessantes porque as imagens podem ser muito fortes, mas nem todas as causas e consequências daqueles actos, podem ter – só – a leitura que é feita nesses documentários. Nada substitui a História dos livros vindos das fontes confiáveis (eu sei que os vencedores fazem a história), feita na solidão dos gabinetes e das salas de estar, com um bom ponto de luz de preferência.

Fernando Proença

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