OPINIÃO

Avarias: O tempo e as modernices

TELEVISÃO
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

A televisão de Verão (rima e é verdade) não é excepcionalmente pior do que nos restantes meses do ano, mas é pior, um bocadinho. Nos canais que passam filmes e séries assistimos a repetições constantes, mas isso não é nada que não aconteça amiúde, mas no Verão abusam.

Em relação às notícias estamos na mesma, no mundo da irrelevância em que tudo vale o mesmo, ou seja, em que tudo não vale a ponta de um corno.

O que não valerá a ponta de um corno, na minha perpectiva, serão os treinos de Cristiano Ronaldo e são precisamente esses treinos que abrem a secção de desporto dos nossos canais, ditos de referência. Lembro aos meus queridos quatro leitores que falo em treino e não num jogo. Quando então o rapaz fizer o primeiro golo, a casa vem abaixo e a TVI ou a SIC farão um daqueles documentários acompanhados de música ao piano, que fazem sorrir e chorar as pedras da calçada, sobre um rapaz que se fez homem e voltou a ser feliz no lugar em que se deu a conhecer ao Mundo. Se algum dia, vier acabar em Alvalade, então a data do primeiro treino será escolhida para feriado nacional. O normal.


Parece que Paulo Rangel, o putativo candidato a presidente do PSD (ou o António Vitorino do PSD, o que significaria que a sua candidatura a presidente do partido seria lançada, na melhor das hipóteses – e isto se entretanto, não lhe oferecessem uma sinecura num qualquer organismo internacional – lá para a época 2029 – 2030), terá dado uma entrevista para a televisão (não a vi porque a minha religião não mo permite, mas li o que se escreveu sobre ela) em que assumia a sua homossexualidade. Referiu que a sua orientação sexual nunca foi um problema e que já era pública.

Antes, eu tinha a ideia que a generalidade dos políticos, para serem eleitos, não se importariam de vender pai e mãe em hasta pública, mas agora com estas modernices da identidade parece que só falta distribuírem, por todos o país, folhas A5, com a orientação sexual a negrito. Agora vendem alugam oferecem a sua vida privada. Estou-me absolutamente a marimbar para o que um político faz entre os lençóis (serve em cima da mesa, chão ou sofá) e não ponho sequer a questão, mesmo que acontecesse, como dizia o romancista Tom Wolfe, que apenas lhe interessava saber essas coisas, caso o presidente do seu país (EUA) fizesse sexo com galinhas. Ponho o ponto no seguinte: o que faz um político – supostamente liberal como Rangel – expor a sua vida íntima, quando ninguém, além dele, deveria ter a ver com a sua privada?, não sei. Talvez seja oportunismo, acertar o passo com o politicamente correcto ou a incapacidade de lidar com a vox populi consubstanciada nas redes sociais; ou tudo ao mesmo tempo. Uma coisa é certa: neste mundo em que público e privado já não têm limites definidos, rende votos ou simpatia, pôr cá fora tudo o que era suposto ser uma opção individual. Como agora se diz, erradamente, porque não dizer se não se tem nada a esconder? E porquê dizer?

Fernando Proença

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