AVARIAS: Onze

Fernando Proença

No meio dos canais cabo em que, a partir das nove e meia da noite só há mexericos futebol, que é, seguramente, a zona (os mexericos) onde os adeptos portugueses gostam de se movimentar, aparece o novo canal 11. Diga-se que tal empresa não é diametralmente diferente do que se vai vendo por aí, mas já é um avanço: há muita conversa entre pessoas que parecem ter saído de um ou outra estação da mesma área temática (desconheço a quem pertence o canal. Será concorrente da Sport TV? Terá como associada a Federação Portuguesa de Futebol? Será de um dos canais existentes em colaboração com outro? Resultará do investimento de marcianos que olham esta zona como uma forma de penetrar no nosso mundo? Se souberem guardem, porque estamos fartos de saber tudo sobre todos), mas vão aparecendo jogos e atenção para zonas que até aqui só apareciam na RTP2 e, muito episodicamente, num ou noutro canal mais atento a realitichous e telenovelas. Por isso talvez existam razões para termos esperança que alguma coisa se vai reordenar, na confluência dos astros e ordenamento dos planetas.

Finalmente o futebol feminino, futsal, jogos das camadas jovens e de divisões inferiores começa a mostrar-se, como a dizer que afinal também existe outra coisa que não só os chamados grandes, e os mais pequenos quando jogam com os grandes. Num certo sentido a Taça de Portugal (agora chamada prova rainha, talvez porque grande parte dos seus jogos são transmitidos em canal aberto: há que saber fazer pela vida), está para os clubes de futebol, como os incêndios de Verão para as aldeias e cidades do qual saem os clubes que agora aparecem no canal 11: sem eles não existiam. Já sei que as minhas palavras são excessivas, que não se podem ligar as duas coisas sem um grande golpe de rins a acompanhar, mas se todos fossemos razoáveis não tínhamos descoberto o caminho marítimo para as Berlengas. Sem eles (os fogos) e ele (o 11), Portugal resumir-se-ia ao Dragão, à Luz e a Alvalade. Como a dizer, que há males que (podem)vir por bem. As transmissões do 11 que nos vão chegando, conduzem-nos a certas realidades que sabíamos existirem, mas apenas a subentendíamos pela televisão, como em relação à malta que sobe ao Evereste ou desce às profundezas do Pacífico dentro de um submarino. E uma das coisas que, desde já podemos ver, é que, independentemente dos jogos serem aqui ou além, em noventa por cento dos campos de futebol por esse Portugal fora, falta tinta nas paredes e bancadas. E ainda por cima a televisão tem a capacidade para fazer de lente de aumentar. Campos de futebol que, na realidade, têm umas paredes com manchas pretas no meio do branco, ficam na televisão com manchas brancas no meio do preto, ou seja, pioram. A TV não engorda mas envelhece os campos do meu Portugal. Percam o amor a uns quantos euros, não gastem todo o dinheiro do fundo de maneio em contratar jogadores para o banco. Invistam em imagem e comprem tinta. Pode não ganhar jogos mas fica com melhor aspecto.

Fernando Proença

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