OPINIÃO

Avarias: Os ditadores e os otários

Algarve
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Existe um ditador em cada um – as excepções confirmam a regra. Juro, por cima do que queiram, que sou um gajo que preza a liberdade de expressão, mas estou sinceramente desconfiado que poderei não ir até ao fundo desta minha crença, caso o problema me toque. A questão geralmente está dependente da dimensão do poder que nos calha: se somos uns badamecos, podemos ser o que temos na cabeça, não atropelamos ninguém, a não ser os colegas da mesa de café que discordam de nós. Se temos algum poder (presidentes em geral, vice-presidentes de qualquer coisa que mexa. Forças da ordem, fiscais de estacionamento etc.), aí já a porca pode torcer o rabiosque.

Nesta modalidade do “baixa lá a bolinha, não sabes a ponta d´um corno de nada, eu é que sei a única maneira de salvar o mundo e talvez Portugal”, vejo todo os dias, assim que ligo o televisor para um qualquer noticiário, virologistas, médicos, funcionários do Instituto Ricardo Jorge e da Direção Geral de Saúde com a respectiva receita que há-de convir mais a uns que a outros. Podem não ser as palavras, mas a forma como são ditas, o tom usado e a cara de quem nos está a passar um raspanete, nós que metemos a pata na poça. Neste particular, leio o que passa – terão razão? -naquelas cabeças: fecharemos tudo em todo o lado, onde exista réstia de vida e daqui a dois anos levantamo-nos da cama, esfregamos os olhos e começamos do zero, como nos filmes de ficção científica em que um vírus destrói a vida humana, até ficarem uns quinze ou vinte para contar. Catorze, para andar com isto para a frente e um para filmar e editar a coisa.


Assim como há um ditador, também temos um otário que de vez em quando nos visita. Existem, claro, uma base de parvos e estúpidos, em que não é nenhum espanto quando emitem opiniões tolas. O pior são os outros, os que sendo inteligentes e sagazes, não evitam emitir juízos de otário sobre tudo e mais um par de botas, tudo isto segundo a opinião do Avarias. Outro dia ouvi um virologista (não tenho presente o nome do vírus), que instado a dar a sua opinião sobre as razões que terão conduzido ao elevado número de pessoas entre os vinte e trinta anos que não querem ser vacinadas, declarou mais ou menos o seguinte: não foi feita a divulgação para levar estes jovens a deixarem-se vacinar.

Então a mais bem preparada geração de sempre, os nativos digitais, onde antes existiam os nativos em peixes, virgem e aquário, os que consomem informação como nós, ar, precisam que a divulgação seja mais atractiva? Não perceberam ou não querem? Já ouvi dizer que a DGS vai tentar levar futebolistas a declarar qualquer coisa como: “eu também fui vacinado, não custa nada. Vacina-te também!!!”? O que querem depois disto?, bonecos manga japoneses a dizer “ohohohoh! Bá ci na san, estás fixe, tipo, bem?”. Desenho animados da Heidi e do Marco, adaptados? Não querem vacinar-se, porquê? Bácina só depois de receber em troca, vouchers para gastar em roupa e copos?

Fernando Proença

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