OPINIÃO

Avarias: Parvoíces

Fernando Proença
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA
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É absolutamente verdade que jogos de futebol de bancadas vazias não se parecem com nada, para quem vê o jogo na TV, e com toda a certeza para os próprios jogadores. Mas vão existindo algumas soluções para atenuar a questão: cachecóis, caras de adeptos penduradas nas cadeiras, ecrãs animados e longas faixas de tecido enchem hoje as bancadas; mas os futebolistas queixam-se e, atendendo aos resultados, parece que o chamado décimo terceiro jogador é mesmo mais importante do que muitos poderiam pensar.

Pelo canto do olho pareceu-me que o Real Madrid está a jogar no seu campo de treinos, o que a ser verdade me parece uma solução muito inteligente. O campo é muito mais pequeno e dá muito menos impressão de vazio. Uma sala grande, despida, parece sempre muito mais despida que uma despida sala pequena e assim sucessivamente. Encerrando agora o capítulo dedicado às dimensões e ocupação do espaço, assomemos à janela da cuspidela para o chão.

Quando vi e ouvi tantos pruridos sobre distanciamento social, tossidelas para o braço e lavagem das mãos trinta vezes por dia, pensei, finalmente!, no futebol, vai desaparecer o cuspo para o chão. Se um dos meus quatro amigos pensa que isso é uma inevitabilidade, como a manhã suceder à noite, desengane-se, só vejo fazer isso no futebol e nos filmes de caubóis. Que eu saiba, nem no voleibol, andebol ou no basquetebol (só para lhes fornecer três exemplos) o limpar o nariz para o chão ou o lançamento do cuspo à distância podem existir. Só no futebol e talvez, râguebi, é que se aceita essa incivilidade. Dizia então que seria chegado o tempo de se banir essa nojeira do mapa, em nome do bem comum da saúde e do bem-estar. Mas não, já vi umas imagens sortidas e a relva vai continuara a crescer viçosa à custa do ranho e saliva dos senhores jogadores.


Todos damos erros (falo por mim) no tratamento da língua, mas existem muitos que seriam absolutamente evitáveis, como os que decorrem da aplicação ad hoc do malfadado último acordo ortográfico. A palavra contacto (que é escrita, muitas vezes e erradamente, contato) é, das que mais têm sofridos os tratos de polé da nossa imprensa (parece que nem o estado escapa, falo do Diário da República). Ainda hoje via a palavra mal grafada num rodapé de um noticiário da TVI. Também é verdade (e é aí que temos a burra nas couves) que vou ouvindo gente com responsabilidades dizer contato, a reboque do erro escrito. É que não bastava qualquer dia dizermos espetador (como quem espeta), levados em erro pela palavra que sem cê antes do tê, não diferencia alguém que está a ver um jogo de berlinde de outro que espeta um pionés num placar de cortiça. Agora, passar a dizer “dá-me o teu contato”, a partir de um erro grosseiro é que é um bocado chato. Mas não faz mal que depois fazem outro acordo (que ninguém acorda, a não ser Portugal) e contacto passa a ser, por decreto, contato.

Fernando Proença

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