OPINIÃO

AVARIAS: Penso eu

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

A programação da RTP Memória sempre me pareceu errática, provavelmente sem o ser. A minha ideia, para um canal que não se posiciona entre os que emitem vinte e quatro horas de notícias (mais coisa menos coisa…), e que não seja temático, seria a de fazer pacotes (humor, cinema, séries e telenovelas portuguesas, desporto, Jogos sem Fronteiras, desde que comentados por Eládio Clímaco, etc…), em vez de uma coisa em que ninguém sabe o que vem e a que horas vem. Às tantas não existirá outra hipótese de fazer as coisas, por causa dos contratos ou qualquer coisa assim, do domínio das leis e do Direito, mas, a mim aborrece-me. Por isso quando ando a dar ao dedo à procura de algo que não sei exactamente o que será, encontro, no meio de muitas coisas que deviam ser escondidas para sempre, uma ou outra pérola, principalmente em termos relativos. A ideia, vista do lugar de La-gardère, que me caracteriza, é de que, em geral, tudo o que era mau ou medíocre, tarde ou raramente se torna razoável ou bom, e tarde ou nunca, muito bom ou excelente. Mesmo sabendo isso, pode haver curiosidade em ver as coisas de um modo mais afastado; assim, sem grande trabalho nem engenho podemos, caso queiramos, tirar a limpo, situações que na altura não nos apercebemos. Por exemplo, vejo, com grande curiosidade, a transmissão de um Portugal – Grécia em selecções A, no já longínquo ano de 1991. Figo com uma gadelha que lhes chegava ao ombro, assim como a de Peixe, que hoje está tão careca quanto eu. Portugal com um equipamento de meter medo ao susto (por acaso já algum teórico da moda terá feito o estudo intensivo sobre os malefícios, na estética da utilização dos ombros e mangas largas, na roupa nos anos oitenta e princípios dos noventa?) e na locução o inenarrável Gabriel Alves (GA). Jogo realizado no Restelo, com um frio de criar bicho e quinhentas pessoas na bancada. Para se perceber o alcance das frases, cujos significados se atropelam, não é necessário ver alguns jogos comentados por GA, previamente escolhidos; em qualquer jogo comentado por GA brota um manancial de lugares comuns da patacoada, e este não foi excepção: “Peixe com um bom remate de longe de meia distância”; “Leal com boa cobertura ao nível da técnica e da táctica”, São umas atrás das outras, como as cerejas. GA não explicava o jogo, os comentários eram, no mínimo atabalhoados, as asneiras residentes, e o tom (como se usava na altura, em geral e GA em particular) acentuadamente naif. Parecia , no entanto, haver em tudo aquilo uma frescura que não se encontra hoje, sequer, nos relatos via rádio local de um jogo da distrital de Portalegre. Não há em 2018, jogo que não tenha um ataque balanceado, futebol associativo e um meio campo em vê invertido, para depois tudo acabar com a equipa que está a perder a mandar bolas para cima da área da equipa adversária. Às vezes o mais é menos.

 

Fernando Proença

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