AVARIAS: Política igual a futebol

Fernando Proença

Fernando Proença

Lá se passou mais uma final da Taça da Portugal em futebol e com ela tudo o que anda à sua volta. As toneladas de bifanas, grupos de excursionistas trajados a rigor grelhando frangos, entremeada, secretos; os casais em que ela é do Sporting e ela é do FêCêPê, a Polícia com o seu discurso hermético sobre viaturas, estupefacientes, graus de alcoolémia elevados e cidadãos portadores de artefactos pirotécnicos. A Taça de Portugal sempre foi vista como um caso à parte, até chegar hoje a ser a prova rainha. Tem piada a final da taça ser a prova rainha, só conhecia a etapa rainha da Volta a Portugal em bicicleta, mas tem o seu lugar na história tratar-se de um jogo, em que se decide tudo durante esse jogo. Uma espécie de super bowl (para quem não sabe, a final do futebol americano. Aquele em que não há vinte segundos de jogo corrido) à portuguesa, sem anúncios a custar milhões, mas com portugueses que contam os tostões (eu não queria fazer rimas…). Depois, no fim, foi muita gente a chorar, demasiada gente a chorar. Chorar, está hoje, ao nível da bebida: habitualmente diz-se que os que ganham bebem para comemorar e os outros para esquecer. Outro dia, o treinador de uma equipa de futebol feminino, que tinha ganhado também (se não estou em erro) a taça de Portugal, não conseguiu acabar a conferência de imprensa, chorando como se não existisse amanhã. Antigamente, dizia-se – estupidamente – que um homem não chora(va). Agora, parece ser politicamente incorrecto que um homem não chore, quando perca ou ganhe, ou quando está para ganhar ou perder. Estamos a falar de um jogo de futebol, não de um filme indiano. Parece parvo os seniores cada vez mais a parecerem infantis. Estes jogos do final da taça lembram-me outros, muito distantes no tempo e atitude, em que os jogadores tinham botas pretas e cabelos normais. Não se trata de nenhuma posição de princípio nem ciúmes, apesar da minha manifesta careca, mas vou, só para vos aborrecer e armar-me em moralista, dizer-vos que o futebol de hoje é, além de muitas coisas mais ou menos boas ou más, um enorme cortejo de vaidades. Vaidades com o cabelo e com as tatuagens. Um jogador do FêCêPê (pareceu-me Alex Telles), tinha (pelo menos durante o jogo) um corte artístico de cabelo, em que em pela cabeça aparecia o que, imitava muito bem, uma cicatriz. Só alguém do século vinte e um pode fazer um corte de cabelo a parecer que teve um problema na cabeça. Se calhar teve e não percebeu.

Vejo pelo canto do olho o período pós-eleitoral, nas eleições para o parlamento europeu. Os políticos e a política parecem-se cada vez mais próximos do futebol: a mesma falta de escrúpulos, o mesmo discurso e a mesma relação conflituosa com a verdade. Sobre a primeira hora da transmissão televisiva, em que apenas existiam projecções, tudo o que pensei acontecer veio a verificar-se: os vencedores ufanos, os vencidos a atirarem para trás das costas a derrota, afirmando que eram apenas sondagens, esperando o momento de dizer que também tinham ganhado. Mais vale que tivessem transmitido um jogo de hóquei-em-patins.

Fernando Proença

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