Fernando Proença
OPINIÃO

Avarias: Prevejo que o ano vai ter trezentos e sessenta e cinco dias

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Vejo, no Sábado /Domingo em que escrevo parte destas linhas, Paulo Portas a fazer publicidade à rúbrica que mantém ao Domingo durante o noticiário da noite na TVI. Nele, o sempre em pé Portas, chama a atenção para as suas previsões para o ano corrente, em praticamente todas as zonas da nossa vida (emprego; política; cultura; vírus e o que mais se lembrarem) menos o amor, que isso é negócio mais pessoal e que, aparentemente, deixa para os astrólogos encartados. Gabo-lhe a paciência de ler tudo quanto é imprensa estrangeira de peso para fazer resumos da matéria, mas na minha opinião a ideia tem mais que se lhe diga. Basta que acerte uma em cada cinco sentenças, para que daqui por seis meses venha dizer: não vos disse? Quem é que tinha razão?, cá o tio Portas. No tirocínio para a se habilitar a ser candidato à presidência da república, nada melhor que nos convencer que só uma grande inteligência (que a tem) é capaz de antecipar os problemas que os portugueses vão ter que enfrentar. Não sendo D. Sebastião (lugar que fica destinado a Passos Coelho), Portas vai, nos próximos anos vender a ideia que é a pessoa mais habilitada e equidistante para pastorear o rebanho tuga, depois de Marcelo Rebelo de Sousa. E o aparecimento de André Ventura é, nesse sentido um bálsamo para Portas lembrar: “comigo continua a não haver extremismos”. Isto, claro está para daqui a cinco anos, que a próxima eleição está bem entregue.


O populismo é o grande vencedor dos tempos que correm. Todos vemos televisão, lemos notícias e ouvimos políticos, por isso ninguém está a dizer nada que seja novidade. Ninguém quer coisas para amanhã, hoje chega; tudo é escrutinado com base em números e estatísticas e como se sabe podemos retirar o que quer que seja de dois a dividir por dois, ou três. As televisões fazem o que for possível para manter o share, equivalendo isso a dizer que fazem tudo mesmo e nesse sentido nada ultrapassa uma frase curta e a opinião forte sem base que a sustente. A CMTV é mestre neste particular, como dizem os brasileiros, mas os outros canais jogam com – quase – todo o baralho do populismo e não hesitam em dizer o que quer que seja, ao mesmo tempo que não se ensaiam nada para demostrar que os outros praticam o tal populismo. Por isso, tenho a dizer-vos que não foi no tal canal malvado, que vi um surreal rodapé (durante um noticiário) em que se lia mais ou menos a seguinte notícia: “registaram-se trezentos e tal mortos (o número é meu, mas é muito aproximado ao texto) em acidentes na estrada, nos primeiros onze meses do ano”. Onde é que aqui pára o populismo? Exactamente nos “primeiros onze meses do ano” (porque nos segundos onze o número de mortos vai, sem dúvida, subir), por que a ideia é que a frase se adapte a ser um aviso. E se é um aviso vale tudo para o fazer, mesmo que seja uma parvoíce e um erro. Uma parvoíce piedosa, mas uma parvoíce.

Fernando Proença

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