OPINIÃO

Avarias: Quando dois mais dois não são quatro

Fernando Proença
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA
[mobileonly] [/mobileonly]

Esta semana (semana em que escrevo) saíram os rankings das escolas. Não vos vou maçar com a minha opinião, que se situa num lugar equidistante entre a ideia do sindicato dos professores e a dos acérrimos defensores do dito campeonato, em que ganham sempre as escolas privadas. No entanto tudo isto é passado assim, à bruta, para os telespectadores, que só por milagre poderiam pensar que o Colégio Moderno de Lisboa, frequentado pelos filhos da nata (mesmo azeda) da capital teria alguma vez na vida dos próximos dois milhões de anos (se nessa altura a população do mundo ainda não tiver desaparecido), piores resultados que uma secundária, da zona recentemente reconfinada de Lisboa, cheia de alunos que davam tudo o que têm e mais dois tostões (a moeda antiga ainda tem muita força), para os tirarem daquela prisão escola em que os pais os meteram para, no fim, ainda terem que estudar o senhor Gil Vicente, que no futebol nem para a Europa se consegue qualificar.

Relancemos então um breve olhar (há muito que não tirava do frigorífico esta frase que, diga-se em abono da verdade, é um lugar-comum como é pouco comum usar-se) sobre o novo paradigma de qualquer informação que, hoje, se preze; o uso e o grande abuso da estatística. A velha máxima do erro que incorpora a questão de um português que come dois bifes e outro nenhum e que resulta, em estatística, que os dois comem um cada, tem, cada vez mais, o seu lugar cativo na história. História, se quiserem, com agá grande. Mesmo que agora a virtude esteja do lado de quem não come o bife e passa fome, ou come duas saladas o outro nenhuma, e passa fome à mesma.

Esta semana foram os tais rankings, nas semanas anteriores os mortos e recuperados da COVID. Até agora só tinha visto alguma coisa igual nas eleições: quaisquer que fossem os números apresentados todos ganhavam, e até seria possível a um cego ver a estratégia. Aponta-se sempre para um resultado mais baixo do que as piores previsões e tudo o que vier a mais é de ganho. Na COVID, há sempre um modo de ver as coisas, diferente do que é comum e essa procura parece ser o modo de vida dos paineleiros infeciologistas ou bitaiteiros da vida airada. Se uns dizem que se devem fazer as contas por cada cem mil, outros que não, cem mil é muito, oriente-me dez mil que não tenho troco. Aliás como aquela definição de futebol (penso que do antigo goleador Gary Lineker) que dizia tratar-se de um jogo que são onze contra onze e no final ganha sempre a Alemanha, penso que as estatísticas são números reais que podem esconder realidades e em que no fim ganha sempre Paulo Portas. Há anos que, neste espaço, escrevi que Portas anda a fazer o tirocínio para a candidatura para a presidência da República, via TV. Se Marcelo o fez porque não eu, terá pensado Portas. Vai daí, toca a fazer o trabalho de casa, procurando sempre uma opinião culta e equidistante (sobre a COVID ou o que mexa), em geral vinda do estrangeiro (de jornais e revistas acima de suspeita): o que mostra que o homem sabe onde e como fazer o furo para espetar o prego (em sentido figurado). Fá-lo a reboque de boas opiniões sobre cinema, livros e uma mistura rara de 49 % de inteligência e 51% de esperteza. Entretanto o tempo fará o seu trabalho e, entretanto, a malta já esqueceu um episódio comprometedor – nunca devidamente esclarecido – sobre submarinos.

Só falta empurrar a bola para a baliza.

Fernando Proença

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Tamanho da Fonte
Contraste
%d bloggers like this: