OPINIÃO

Avarias: Sinais dos tempos

Fernando Proença
OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Quem olha pela primeira vez – depois habituamo-nos – para um dos noticiários da CMTV, tem a sensação que o estúdio onde se produz a informação está ligado directamente a um cabaré ou a uma fonte de electricidade. Esta última deve ser a opção correcta, porque a televisão do jornal mais lido por uma população temente a Deus, nunca poderá estar ligada às teias da perdição. Na imagem há sempre uma aura avermelhada e muito luminosa que nos faz pensar que, de repente, o nosso televisor avariou os botões da cor e que perpassa para o apresentador ou apresentadora (o Avarias está cada vez mais inclusivo), um tom avermelhado que geralmente se compagina (certamente não será o caso) com uma refeição bem regada. Parece então, que estamos sempre em presença de alguém que está a fazer campanhas diárias de solário, porque manter o bronze conquistado no Verão não é pera doce. Não é bonito, mas ninguém passa despercebido.


Vejo o Olhanense – Louletano no canal onze. A locutora de serviço diz que se joga no mítico estádio do Olhanense. Apesar de lá ter visto muitos jogos da primeira liga, não me parecia que a comentadora se referisse a este, mas ao antigo estádio do clube, estádio Padinha. Pelo desenrolar do jogo e dos comentários percebi que o mítico estádio, para a senhora, tinha alguma coisa a ver com o actual estádio do clube e não com o anterior, ligado, esse sim a uma longa e prestigiada história. Parece que a existência, em certa altura, de Abel Xavier como treinador do clube construiu a imagem que a locutora guardou como definitiva para a construção do tal Olhanense grandioso, o que, perdoem-me a ligeireza, empurra a história para o horizonte da mesa de café. Dir-me-ão, com toda a razão, que comentar futebol da terceira (de primeira também serve), não é exactamente, dar uma aula de História, mas falar com excessiva ligeireza pode confundir-se com ignorância. É caso para se pensar que é o que dá ser-se comentador desportivo e pensar que o futebol começou no ano 2000, ou depois.


A SIC tem um programa, “Polígrafo” (SIC Notícias) que é uma espécie de provedor do espectador (Voz do Cidadão, RTP 1, sábados depois do almoço. Aí os telespectadores são telespetadores, alguém, que espeta coisas na televisão). A TVI também já aderiu à causa fazendo uma ligação estratégica com o Observador que não prima pela objectividade,, como sabemos. Todos estes programas são tentativas de lavar a cara à informação veiculada pela estação (neste caso, estações). Na paranóia de se informar antes da concorrência, o princípio agora é, apresentar primeiro e investigar depois. As notícias falsas são mais que muitas e tenho a ideia que ninguém se preocupa muito em pesquisar, desde que forneçam material para desancar alguém nas redes sociais. Nas televisões depois do mal feito cria-se uma espécie de comunicado não oficial, através dos programas já referidos atrás, e limpa-se a imagem. Entrou-se na má normalidade de se ver e ler notícias não lhes dando muito crédito, porque as asneiras vêm umas atrás das outras e às seis da tarde não nos lembramos do que ouvimos às treze. Às vezes é melhor não se saber muito do que vai no mundo.

Fernando Proença

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