OPINIÃO

AVARIAS: Sinais dos Tempos

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Escrevo num dos dias em que já se sente a vinda do Outono. Sente-se, mas não se sabe se chega entretanto: é uma das características dos tempos actuais, de um clima menos previsível, talvez de mudança. Com ou sem alterações climáticas, certo em Portugal é que o futebol é o mais importante que pode existir ao cimo da Terra e não o é em profundidade por que ainda não perguntaram aos mineiros e trabalhadores do Metro o que eles pensam sobre a questão. E futebol tuga significa Benfica, Sporting, FêCêPê e pouco mais. Então, durante dois ou três dias só deu o assunto “eleições no Sporting”. Não estou a dizer isto por ser o Sporting. Se fossem os lampiões ou o clube que apenas tem uma cor, o azul e branco, era a mesma coisa (ou se calhar um pouco pior). Estou só a colocar-me no lugar de quem decide o alinhamento do noticiário, em horário nobre, da televisão pública. O noticiário da noite de Sábado, na RTP1, abriu e continuou, continuou e continuou, durante uns larguíssimos minutos com as eleições de Alvalade, entrevistas, previsões, mais entrevistas seguidas de reportagens de rua, e se isso não é a estreita subjugação do jornalismo (e do bom senso) ao futebol, vou ali e já volto. Primeiro foi o E – Toupeira e o Benfica, seguiu-se o Sporting e, para fazer o pleno, só falta mesmo um desfalque feito pela SAD do Porto, na pessoa do seu presidente. Acabaram os incêndios (azar dos azares) e tem que se encher aquela horinha das notícias. Pelos padrões em que se movem, às tantas não se descortina melhor forma de o fazer.
A RTP 2, continua, mesmo com todos os problemas e opções incertas e irregulares, a fazer um bom trabalho de divulgação de trabalhos menos requisitados, mesmo nos canais cabo. Parece-me muito bem – e não só por que desenjoamos do inglês falado por americanos – dar uma vista de olhos às series alemãs, belgas e escandinavas que passam depois das dez da noite. Não têm um padrão único, embora a matriz policial leve a parte de leão. São, em geral, razoavelmente bem feitas, mesmo para padrões absolutos e dão-nos migalhas de outras realidades e vivências a que já não estamos habituados, tão perto do universo (pelo menos de um determinado universo…) anglo-saxónico andamos. Não é que tudo seja um produto autóctone, porque as regras (e isso não é, em si, mau) são as das séries que nos inundam as televisões, mas existe muita característica própria e intransmissível que nos reportando a mundos próximos, geograficamente (afinal falamos de séries europeias), nos está longe culturalmente. Como os portugueses, que, impantes no dinheiro que ganhavam nos anos oitenta e noventa, se apressassem a conhecer Londres e Nova Iorque, enquanto cidades e zonas com as do Porto, se mantivessem virgens à sua presença. Já o cinema português, que louvavelmente a RTP2 continua a passar, não me convence, mesmo descontando a minha pessoalíssima embirração. Outro dia espreitei “Conversa Acabada” de João Botelho, sobre a correspondência de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro. Palavra que ainda hoje não percebo se aquilo era a sério ou a brincar. Se não era a brincar, era mau de mais.

Fernando Proença

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