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OPINIÃO

Avarias: Três pontinhos apenas

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Lar doce lar – Vejo, quando ando entre canais, a posta do meio de uma das variadíssimas telenovelas tugas, que enxameiam as televisões generalistas. Como em todos estes casos, noventa e cinco por cento do tempo é passado na sala de jantar (ricos) ou cozinha (pobres, ou criadagem dos ricos), na sede da empresa (ricos e ricos, entretanto falidos); na sala de estar da herdade do senhor engenheiro (ricos), ou na cavalariça (riquinha e pobre criado da riquinha, enquanto tratador e apaixonado). Sobram as cenas modernas em hospitais – os argumentistas de hoje já não pressupõem telenovelas sem crime, mas habitualmente com castigo divino. Nas novelas em que entra José Wallenstein o tempo passado na sala aumenta para quase cem por cento. Outra marca de autor (de todos os autores de novela, por sinal) é a mesa do pequeno-almoço, sempre farta (como nas brasileiras), croissants, bolos, sumos, mas os actores só bebem uma chávena de café.


Portugal é Lisboa e o resto é paisagem – Bastou que se começasse a fazer o desconfinamento com base nos concelhos, para que a grande onda de solidariedade tuga, fosse por água abaixo: uns contra os outros, desconfianças, ciúmes e tudo o que faz que sejamos, simultaneamente, humanos e portugueses. A fórmula de cálculo, o mais científica possível, pode ser agora alterada porque…

Lisboa pode vir a recuar no confinamento. Até Marcelo veio puxar os galões, que uma coisa é um café fechar em Alcoutim, outra é fazê-lo em Paço de Arcos. Alguém dizia, em tempos, que os fogos de Verão só existem porque habitualmente se passam longe da capital; e eu estou para acreditar. Parece que a velocidade contagiou a forma como vemos tudo: os noticiários que cantaram loas à final da Liga dos Campeões no Porto, à sexta (parte da tarde), cheios de bolhas, foi diametralmente alterada, no Sábado à noite, para “que mau que a final tenha sido em Portugal”, sem a bolha. A pergunta que faço é: em que mundo é que esta gente – governo que ou sabia e foi mau, ou não sabia e foi parvo. Os jornais em que antes era bom e um dia depois, péssimo – vive?


Toda a vida foi assim – Já todos percebemos como é que as coisas são, mas o Avarias, mesmo sabendo disso, não gosta de más recordações. Inquiridas sobre se as consequências do desconfinamento na hotelaria do Algarve, ouvi (mais do que uma vez e isso vale o que vale) que os profissionais do sector, como se costuma dizer, estavam um pouquinho mais satisfeitos e contentes com os portugueses que fizeram mini- férias nos hotéis do nosso cantinho, mas o que estavam era à espera era dos ingleses. Malandros, foge-lhes sempre a boca para a verdade e assim é que gosto das pessoas, honestas e sem cartas na manga. Apalermados com as declarações dos tais profissionais do sector, sobre o seu grande amor a Portugal e aos portugueses, temos sempre a ideia que aquilo é só da boca para fora e que os tais profissionais gostam mesmo é dos ingleses, para aproveitarem para vender bailas por robalos, e sardinha com uma semana de frio. A gente compreende isso, dinheiro é dinheiro, escusam é de vir queixar-se das vezes em que os bifes apanham aquelas bebedeiras de caixão à cova, e partem metade da louça do estabelecimento ou do bar do hotel.

Fernando Proença

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