REPORTAGEM

Barranco Longo investe 2 milhões em enoturismo

Com uma produção a rondar já as 150 mil garrafas por ano, a Quinta do Barranco Longo, no Algoz, prepara-se para ter uma das melhores unidades de enoturismo do País e porventura a melhor do Algarve. Um investimento de 2 milhões de euros a inaugurar em 2022 pela única sobrevivente das três propriedades pioneiras dos vinhos de quinta da região. Já lá vão duas décadas

O Algarve prepara-se para ter uma das mais sofisticadas unidades de enoturismo do País, que ficará situada na Quinta do Barranco Longo, próximo de Algoz, concelho de Silves, soube o JA junto do proprietário daquela quinta, o produtor vitivinícola Rui Virgínia.


Trata-se de um investimento de dois milhões de euros, cujas obras arrancarão nos próximos meses e se prolongarão até 2022, altura em que a unidade será inaugurada, precisou Rui Virgínia.

Projeto 3D da nova unidade de enoturismo, que ficará pronta em 2022


“Queremos pautar este investimento pela inovação. Vai ser um dos enoturismos mais bonitos em Portugal, não tenho a mínima dúvida do que vamos fazer. E a nível do Algarve vai ser uma mais valia para a região e para o concelho de Silves”, disse à reportagem do JA o produtor de 51 anos.


Com um design futurista e arrojado, o novo edifício da Quinta do Barranco Longo vai ter uma loja que estará permanentemente aberta, um restaurante e um setor de eventos, “feitos à medida das marcações”, enunciou Rui Virgínia, que com esta unidade pretende “evitar o que acontece atualmente, que é as pessoas chegarem aqui, diariamente e em grande número, para visitar a quinta e provar um vinho, e terem que voltar para trás”.


Esclarece que se trata de “um turismo mais calmo e relaxado, para gente que vem com tempo, não um turismo de massas”, de que farão parte atividades como provas de vinhos, cursos de vinhos e até cursos de cozinha e gastronomia. “Vamos tentar que o edifício tenha uma própria vida”, resume, prometendo que se tratará da melhor unidade de enoturismo que a região já viu, desde que “explodiram” os vinhos algarvios, no início do presente século.


“Fazer enoturismo não se resume a ter uma porta aberta. Fazer enoturismo não é comprar uma mesa e 24 copos, como tantas vezes acontece. Isso não é enoturismo, mas é a isso que a maioria das pessoas chama enoturismo”, critica o empresário.


Anuncia “um investimento muito forte da quinta” na futura unidade, “para dar aquilo que a região merece”.


“No fundo, será, no Algarve, aquilo que nós visitamos pelo mundo fora, o Algarve vai ter aqui também um enoturismo desses”, assevera, sublinhando que a unidade não terá alojamento hoteleiro próprio porque “não faz sentido, estamos no Algarve e os visitantes que aqui virão já estão alojados em unidades hoteleiras”.

Rui Virgínia

Sozinho “contra o mundo” e sem fortuna pessoal


Não é de agora o pioneirismo a que Rui Virgínia se propõe com este novo projeto. A própria quinta em que hoje produz alguns dos mais afamados vinhos da região é produto das suas ideias pioneiras quando, recorda, “o setor estava completamente perdido na região”. Limitava-se então, em matéria de propriedades vitivinícolas, a duas adegas cooperativas (Lagos e Lagoa) e um produtor privado, João Mendes, de Portimão. Estávamos no dealbar do século XXI e os novos tempos prometiam, para os quase desconhecidos vinhos algarvios.


“Dos três primeiros produtores de quinta do Algarve, sou o único que está aqui ainda. No início, além de mim, era o Morgado da Torre e o Cliff Richard, a Adega do Cantor ”, recorda.


Então jovem agricultor com o curso tirado na Universidade de Évora, Virgínia dedicava-se, no início, aos citrinos e foi para isso que comprou os primeiros 40 hectares do Barranco Longo. Mas sempre se perguntou, olhando exemplos de colegas de universidade que se tornaram enólogos e até produtores em outras regiões do País, “se nós no Algarve temos boa fruta, qual é a razão para não termos boas uvas e produzir bom vinho?”.


E foi numa pequena parcela desses 40 hectares iniciais que o então jovem Rui Virgínia, sempre sozinho “contra o mundo” sem fortuna pessoal e apenas contando com alguns subsídios comunitários, começou a produzir os seus primeiros vinhos.


“Os meus primeiros vinhos foram quase como um campo de ensaio, eu não tinha nenhuma referência para dizer que se produzia bom vinho na região do Algarve”, recorda agora, duas décadas depois, lembrando também o muito que aprendeu nas sucessivas visitas a outras regiões produtoras e no estrangeiro, em França e em Espanha.

O advento dos vinhos pouco alcoólicos


E é assim que o jovem empresário agrícola começa a sua produção, na altura com cinco referências, quatro tintos e um branco. E com uma outra novidade: os solos da sua propriedade não eram arenosos, como era hábito no Algarve, mas sim argilosos.


“Onde eu me instalei, fugi do tradicional. Porque noutros tempos, os solos eram predominantemente arenosos, pois estavam mais perto do litoral. Era aí que se produzia a casta negra mole. Colocando a vinha noutro tipo de solo, o resultado que tivemos de uvas para a produção de vinho é completamente distinta. O solo que usam é a argila calcário, é terra”, sublinha, enfatizando que o Barranco Longo foi das primeiras quintas a plantar no interior da região.


Uma decisão trouxe vantagens, ao permitir a produção de vinhos “com alguma estrutura, uma boa acidez, álcool não exagerado e muito mais longevidade”, tal como o mercado exige, nas palavras do produtor do Algoz. Pelo contrário, sublinha, as uvas produzidas em terrenos de areias “resultam em vinhos muito mais alcoólicos, com muita menor acidez e torna-os com pouca durabilidade, não são vinhos de que se pudesse fazer guarda. São de consumo imediato, rápido, e extremamente alcoólicos. E depois as castas plantadas proporcionam vinhos com pouco tanino e com pouca cor”.


Hoje, duas décadas depois, a quinta cresceu. Há cinco anos, passou dos iniciais 40 hectares para 100 hectares. Setenta e cinco deles são dedicados à produção de citrinos, mas já há 20 hectares para a uva, a que se juntarão em breve cinco hectares.

Grosso modo, um hectare tem a mesma área de um campo de futebol, comparação que permite aquilatar as dimensões de que se fala.

Câmara frigorífica


Hoje, muitos investimentos e trabalho aturado depois, o dono da Quinta do Barranco Longo orgulha-se do que obteve: “Em termos de inovação e modernidade, somos o produtor da região que esteve sempre um passo à frente dos outros todos e ainda hoje o somos”, explicita Rui Virgínia, sem falsas modéstias.


E concretiza esse avanço em marcos: “Fomos pioneiros na produção do rosé no Algarve. Fomos os primeiros a produzir espumante no Algarve. Fomos os primeiros a produzir Late Harvest de uma categoria fantástica”, evidencia.

Os mais avançados processos tecnológicos na produção de vinhos

“Não há tecnologia mais avançada que esta”


Com uma produção anual que ronda já os 120 mil litros (150 mil garrafas), repartida por cerca de 20 referências da marca QBL, a quinta do concelho de Silves acompanhou a evolução das exigências de mercado: a produção de vinhos brancos e rosés estendeu-se face aos tintos e ocupa já 75% da safra anual. Só 25% são tintos.


“Esta apetência pelos vinhos brancos e rosés é sobretudo por causa do clima. Está mais quente, temos tido primaveras e outonos mais quentes nos últimos anos. E a nossa gastronomia puxa por vinhos mais frescos e menos alcoólicos”, diz o produtor.


Por outro lado, a quinta está a corresponder a uma apetência por vinhos com pouco álcool e esse controlo, baseado em experiência e também em ritmo tecnológico, é superiormente feito na QBL: “O mercado está cada vez mais a pedir por vinhos menos alcoólicos. Hoje ninguém quer beber um branco com 13,5º e esse controlo é passível de ser executado na vinha, o bom trabalho de vinha faz com que nós vindimemos mais cedo”, afirma, explicitando: “Tem muito a ver com o trabalho na vinha, o sistema de armação, a condição a que temos as plantas, as videiras plantadas e a superfície floral que elas têm”.


A mecanização de ponta é um dos maiores predicados de que fala Rui Virgínia quando instado a explicar a sua produção: “Aqui primamos por ter um hardware forte, em termos de equipamento estamos muito bem suportados, com tecnologia da mais avançada que existe, não há tecnologia mais avançada que esta que estão aqui a ver”, afirma, mostrando as máquinas por onde vai passando a uva, depois de ter passado algumas horas numa câmara frigorífica, antes de se transformar num líquido que corre em tubos vermelhos, a caminho das cubas de inox.

Restaurantes algarvios sem garrafas do Algarve


Ao contrário dos vinhos de outras regiões, os vinhos algarvios bebem-se predominantemente na região em que são produzidos. “Eu acredito que está a começar a fase dos vinhos do Algarve na região do Algarve, sem dúvida alguma. Os vinhos da região vão começar, por direito próprio, a ter o mercado que lhes pertence. A restauração e o consumidor já olham com outros olhos para os vinhos que são produzidos na região. Ainda não temos volume para exportar, só em Lisboa. O principal objetivo é os vinhos do Algarve terem maior e melhor implementação na região do Algarve”, sustenta Rui Virgínia.


De há uns anos para cá, muita coisa mudou: “Há 10 anos, chegávamos a ir a restaurantes, e ainda hoje há restaurantes, em que não havia uma única garrafa de vinho do Algarve. Os vinhos do Alentejo são os que têm mais força e influencia na região, mas hoje já fazemos vinhos tão bons ou melhores que eles”.


Com uma seleção de vinhos distribuído sobretudo através do canal HORECA (hotéis, restaurantes e cafés), que vão dos mais módicos Blend e Syrah aos sofisticados Remexido, a QBL tem uma equipa de três comerciais que, além daquele canal, percorrem também as garrafeiras da região. Fazem parte de uma equipa de 16 pessoas.


“Somos o único produtor do Algarve que se pode considerar uma casa agrícola. Porque nós não temos uma monocultura. Nós garantimos trabalho aos nossos funcionários o ano todo, são efetivos. Os outros produtores não mantêm empregados. Eu tenho a equipa toda montada”, compara.

João Prudêncio / *com Luís Bravo Dias

Produção de Vinhos do Algarve quase duplicou em 10 anos

A produção vitivinícola no Algarve quase duplicou nos últimos 10 anos, de acordo com dados da Comissão Vitivinícola da região (CVA), a que o JA teve acesso. O total da produção de vinhos certificados na última campanha, em 2019, foi de 1.172.450 litros, quase o dobro dos 642.755 litros produzidos nas vinhas da região em 2010, segundo os mesmos dados.


Esse crescimento foi acompanhado pelo aumento do número de produtores, que há uma década era de 16 e quase triplicou desde então: hoje há 45 produtores de vinha e vinho em toda a região, dos quais 30 colocam vinhos ativamente no mercado.


O crescimento das áreas agrícolas adstritas à produção de uva e de vinho fez-se essencialmente com base em quintas produtoras de vinho com denominação de origem e indicação geográfica.


Curiosamente, os vinhos com Denominação de Origem Controlada (DOC) e Denominação de Origem Protegida (DOP), designações que deveriam ser mais cobiçadas, estão a ser abandonadas a favor da designação Indicação Geográfica Protegida (IGP), graças ao sucesso da marca turística Algarve, inscrita nas garrafas com aquela designação.


“As designações DOC e DOP estão a ser substituídas pela IGP porque os produtores preferem ter a palavra Algarve nos rótulos do que Tavira, ou Lagos, ou Portimão”, disse ao JA um produtor regional, sublinhando que, ao contrário de outras origens, a esmagadora maioria do vinho algarvio se vende e bebe na região de que advém.


De facto, em 2010 as certificações DOC/DOP venderam em 2010 um total de 75.750 litros (contra 567.005 litros de rótulos IGP), mas em 2019 os DOC/DOP decresceram para um terço (24.301 litros). Em contrapartida, os IGP cresceram para mais do dobro (1.172.450 litros).


Os 45 produtores atuais inscritos na CVA dividem-se em várias categorias: os que são detentores de vinha e vendem a uva a outrém, os que compram uva a outros, os que vinificam uva da sua propriedade e os engarrafadores, que não têm vinhas nem compram uva, mas compram o vinho finalizado e engarrafa com a sua própria marca.


Até ao século XXI, cerca de 70% da produção era constituída por vinhos tintos. “Dantes chegava ao final de verão e não podia vinho desse, ele acabava, os hotéis batiam à porta dos produtores e diziam que tinha esgotado. Havia necessidade de alargar a área de produção, para castas brancas e rosé. De haver uma produção contínua de rosé, ele não ser só feito quando o tinto não estava com tanta qualidade. E isso dá resposta às necessidades do mercado”, disse ao JA a presidente da CVA, Sara Silva.


Um mercado que, pelas características climáticas e devido à sazonalidade turística da região, exige vinhos de verão.


Quer os rosés quer os brancos têm vindo cada vez mais a ganhar o seu próprio espaço. Um rosé feito de raiz para rosé, não com base em excedentes do tinto, como acontecia outrora.


Em 2019 produziram-se cerca de 734 mil litros de tinto IGP na região contra 153 mil de rosés e 261 mil de brancos. O que significa que os brancos e rosés  correspondem a quase metade (44%) de toda a produção vitivinícola regional de vinho IGP.

Curiosamente o mesmo percentual de 2010, mas seguramente muito superior ao princípio do século, quando os vinhos de quinta começaram a singrar na região, com as então pioneiras Quinta do Barranco Longo, a Adega do Cantor (de Cliff Richard) e a Quinta da Penina. Antes disso, a produção advinha praticamente toda das duas cooperativas regionais, Lagoa e Lagos.


“Dizia-se que no Algarve não se fazem vinhos brancos de qualidade mas isso está totalmente negado. Sobretudo é necessário um bom trabalho de acompanhamento das vinhas até à adega e todo o processo que é feito na produção de vinho, que é da seleção das castas”, disse a presidente da CVA, enaltecendo também o aumento da qualidade dos rosés, todos eles com denominação regional IGP.


J.P.

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