Caçada infeliz

Todas as noites, aí pelas dez, saía da casa onde habitava, na Rua do Pinheiro, para se dirigir à ria, à zona da marina. Era um rancho deles que ali se aquartelou, num casoto decrépito que já foi abrigo de gente que nele amou e guerreou, mas ao tempo mantinha apenas a metade posterior do telhado de caniço e telha mourisca assente em barrotes podres à espera de cair também. Devem ter-se ido chegando, primeiro um, que viveu inquieto os primeiros dias rogando a São Luís para que não o enxotassem, depois outro e outro a quem aquele assegurou que podiam ali ter agasalho. Mantimento não faltava pois, embora já comprida fosse a hoste era de conforme medida a alma da vizinhança e todos os dias um arrozinho de peixe, uma massa com feijão ou mesmo um charrinho pequeno frito se renovavam abundantes em vasilhame de plástico junto à frincha por onde faziam a entrada.
Era membro da comunidade, julgo que macho, e tinha o andar olímpico e insolente da espécie quando a vida lhe vai boa, o bucho tendo aconchego e o coração consolo.
Atravessava a avenida sempre pela passadeira e olhando a um e outro lado, assegurando-se do desimpedimento. Finda a travessia examinava o horizonte, não fosse por ali andar cão na madracice. Se lobrigava algum metia-se debaixo de um carro estacionado e esperava que o mequetrefe desalvorasse. Quando via a costa livre abalava, sem pressas, para o seu destino, parando junto ao muro da barbacã antes de empreender o salto. Aí, caminhava várias vezes em direcções opostas, suponho que sondando com os seus sensores o que se passava para lá. Finalmente, com a beleza plástica duma figuração oitocentista saltava para o topo do muro e daí sem detença lançava-se para o passadiço que corre acima da maré, junto à barreira da ria.
De dia, na maré baixa, cinco ou seis homens, quais garimpeiros, costas dobradas em arco e fadiga, escavam no lodo o ouro bivalve que a outros enriquece. À noite só chega à ria uma luz cansada que nem dá para mostrar o caminho aos caranguejos, e, exceptuando a fauna minúscula de crustáceos e insectos nada mais agita o sossego dos canais e dos chãos alagadiços. Desaguam, na base da barreira, canos antigos, que drenavam no passado escorrências e despejos de fábricas e armazéns. Por eles sobem por vezes furta-camisas juvenis que encurtam a vida ao sair nos largos asseados da cidade e sem encontrar a rota de regresso. E neles se aboletou também rataria com larga parentela que no lodo das redondezas achava com que prover fartamente ao seu sustento e por isso se multiplicava com denodo.
E era por estes maraus dos esgotos que ele empreendia a sua diária investida. Em paz e alimentado não precisava de ratos para nada, mas a natureza ainda não lhe cancelara o instinto de cacenho com que o armara no antanho, há milénios, antes de a sua espécie ter trocado a alforria da vida selvagem pela segurança dos lares caseiros. Era essa pulsão da caça que o impelia a acaçapar-se nas bocas dos canos, de patas tensas e olhos magnéticos, no fito de fisgar gabiru que por ali viajasse em busca do que trincar para si ou para a prole. É claro que a rataria não se dispunha de alma aberta ao martírio. Os séculos e a mãe natura ensinaram-lhe a pressentir os perigos e a locução fino como um rato colhe provas na experiência. E por isso as mais das noites nem se estreava. Mas em tão vasto povoamento sempre havia um ou outro que uma vez se descuidava. E aí, ágil como a ventania, filava-o com as patas dianteiras cravando-lhe as unhas na pele e ficava a deleitar-se com as convulsões do mártir procurando libertar-se. Não o comia. Esgotava no exercício o gozo e soltava-o quando a gana lhe esmorecia. É de crer que o fazia aliviado, ruminando em que uma ninhada de gatafunhos esfomeados não ia morrer nessa noite porque a mãe não voltou da sua faina.
Terminada a lida regressava ao aposento pelo mesmo caminho e com as mesmas cautelas da ida. Mas, tal como os ratos, também ele uma noite se descuidou. Projectara a edilidade criar no espaço entre a avenida e a ria um enfeite de moderna geometria, coisa primeiro-mundista, capaz de encher o olho ao urbanita insípido que por ali se passeie, vindo no tropel turístico que enxameia a cidade. A obra esventrou a via, desfez passadeiras, e os carros passaram a circular num só sentido sobre o antigo passeio. Iria ele contente, pacificado, talvez fantasiando (era Janeiro) que uma parceira o esperava para trocarem uns miados e o mais que ao destino aprouvesse. Não se fez acto o anseio: o rodado de um automóvel esmagou-o contra a calçada quando iniciava a travessia. Extensa mancha vermelha alastrou sobre a alvura da malha que lhe embelezava o peito e um véu de lama castanha cobriu-lhe o pelo pedrês que lhe enobrecia o ar.

Rogério Silva

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