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Cavaco travou envio de comandos para o pior cenário de guerra

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O Governo português ponderou enviar uma companhia de comandos entre 2009 e 2010 para o pior cenário possível da guerra no Afeganistão, em que 150 militares iam combater sem quaisquer restrições, sob as ordens dos ingleses. Cavaco travou o plano.

Micael Pereira | EXPRESSO

Uma companhia de 150 comandos esteve para ir combater na zona mais perigosa do Afeganistão, entre 2009 e 2010, sob o comando das tropas britânicas, sem qualquer restrição no uso da força e com um risco elevado de vir a ter baixas, pelo que se percebe na correspondência diplomática norte-americana.

O contingente iria ser colocado em Helmand, a mais difícil de todas as províncias, no sul do país, ao lado de Kandahar. Com uma forte presença de talibãs, intensificada a partir de 2006, é lá que é produzido quase todo o ópio afegão.

Um telegrama confidencial enviado para Washington a 21 de maio de 2009 pela embaixada dos Estados Unidos em Lisboa revela que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, confirmou ao embaixador Thomas Stephenson a intenção de Portugal “em fazer regressar uma Quick Reaction Force à ISAF (a missão da NATO no Afeganistão), muito provavelmente integrada com o comando britânico na província de Helmand”, o ponto nevrálgico da guerra naquela altura. No verão de 2009, a província entraria numa fase de ferro e fogo, com a maior operação de marines desde a guerra do Vietname.

A intenção de enviar tropas especiais para o “inferno” de Helmand e “sem caveats”, sem limitações de combate, parece ter-se mantido de pé durante pelo menos sete meses. Em novembro de 2009, o comandante-chefe das forças terrestres britânicas, Peter Wall, veio a Portugal para se encontrar com o Estado-Maior do Exército, admitindo ao Expresso que os ingleses “adorariam trabalhar juntos com os portugueses” e que os 150 comandos portugueses destacados para irem para o Afeganistão podiam contar com apoio logístico para participarem na frente de batalha. Os britânicos tinham o comando de toda a região sul do país, incluindo Helmand e Kandahar.

Os americanos tinham sabido por fontes informais no Governo, e um mês antes do encontro com o ministro, da missão a Helmand. Stephenson promoveu nessa altura uma reunião com os seus homólogos da França, da Itália, da Dinamarca, da Polónia e da Austrália para convencerem Lisboa a mandar mais homens para a guerra, ao mesmo tempo que revelava ao Departamento de Estado que ia passar a trabalhar com o embaixador britânico no mesmo sentido.

O plano Helmand, contudo, nunca foi assumido publicamente pelo Governo português e caiu por terra. Uma companhia de comandos foi em missão para o Afeganistão nos primeiros meses de 2010 mas ficou instalada em Cabul, sem se envolver em manobras de ataque.

No encontro com o embaixador, de maio de 2009, o ministro dos Negócios Estrangeiros explicou que estava à espera de que o Conselho Superior de Defesa Nacional, que inclui o Presidente, desse luz verde ao plano. “Amado contou que os contactos com o Presidente dão a entender que ele está inclinado a apoiar esse cenário”, escreveu Stephenson. Mas o apoio, pelos vistos, não veio.

O que não seria, de todo, uma surpresa. Cavaco Silva é referido várias vezes na correspondência como o principal entrave a uma maior participação portuguesa na guerra, em contraste com o Governo.

Num almoço de um assessor diplomático de Amado com um conselheiro da embaixada dos EUA, relatado num telegrama confidencial de 9 de novembro de 2007, a clivagem com Belém já era notória. “Paulo Lourenço disse que a decisão de reduzir a contribuição de Portugal na ISAF de uma companhia de reação rápida (150 comandos) para um C-130 e uma equipa de 15 militares em agosto de 2008 foi tomada durante uma discussão acalorada do conselho superior de defesa”, vem no telegrama.

“Ele disse que os chefes dos ramos, o CEMGFA, o primeiro-ministro e os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros se opuseram todos à redução de tropas. Foi claro que a força de bloqueio foi o próprio Presidente, aparentemente motivado pela preocupação sobre a escalada da violência, a possibilidade crescente de haver baixas e o impacto disso na opinião pública”.

A retirada dessa companhia de comandos em agosto de 2008, que tinha estado em Kandahar e sofreu uma baixa, foi muito mal recebida pelos americanos, criando um embaraço diplomático. “Nós expressámos a nossa profunda preocupação por termos conhecido inicialmente essa decisão ao lermos um artigo de uma agência de notícias iraniana sobre uma ida do ministro da Defesa a uma comissão parlamentar”, lê-se no mesmo telegrama. Numa nota final, o embaixador nota que o assessor diplomático, Paulo Lourenço, “foi franco nos seus comentários, que são consistentes com relatos anteriores de uma série de fontes de que o Presidente Cavaco Silva não era um grande fã da participação de Portugal na ISAF”.

Confrontado com o teor dos telegramas, o gabinete do ministro da Defesa não quis comentar, remetendo para as declarações públicas feitas por Augusto Santos Silva quando o Expresso começou a publicar os telegramas do WikiLeaks, a 26 de fevereiro, em que condenou a divulgação dos documentos. O ministro dos Negócios Estrangeiros também optou por não reagir.

JA |REDE EXPRESSO
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