OPINIÃO

Comunicando desportivamente: A saúde e os afetos!

OPINIÃO | HUMBERTO GOMES

Uma vez mais, este fenómeno de grande magia e impacto social que é o futebol, nos traz situações e episódios que retratam bem de como o Desporto e a Vida, se e com verdadeiro sentido ético, podem estabelecer um caminho de proximidade, até mesmo de comunhão, edificando uma forma de estar e de existir, particularmente a servirem de exemplo e de referência para a geração que hoje desponta.


Vem este intróito a propósito de uma situação vivenciada por Sinisa Mihajlovic, treinador de futebol, de 51 anos, de nacionalidade sérvia, e que a dado momento chegou a assinar contrato com o Sporting, em Junho de 2018, mas que por divergências futebolísticas/jurídicas não se chegou a concretizar.


Mihajlovic, a lutar com uma leucemia, numa altura em que esteve hospitalizado, recebeu, imagine-se (!), outra identidade, que ele próprio explica. “No Hospital Sant`Orsola deram-me uma identidade falsa. Eu era Cgikjltfr Dronovsk, um sem-abrigo de 69 anos”. Que ele explica melhor: “Queriam afastar potenciais curiosos, que pudessem perturbar outros doentes. Ao fim das duas primeiras sessões de quimioterapia eu já parecia um homem de 69 anos”.


Na sua profunda luta contra a leucemia, reconheceu o técnico em recente entrevista ao diário italiano “Corriere della Sera”: “Cada pessoa faz isso à sua maneira, mas a verdade é eu não sou um herói. Sou o tipo de pessoa que costumava falar em ganhar uma guerra só com a coragem. Mas eu tive medo, chorei, perguntei “porquê?”. Implorei ajuda a Deus, como qualquer outra pessoa”.


Agora, mais consciente da situação, com uma interiorização mais serena e com uma boa dose de humildade, Mihajlovic abriu o coração: “Aprecio cada momento. Não o fazia antes, dava tudo como garantido. A saúde conta, os afetos contam. A doença tornou-me um homem melhor, um homem que tenta ver o copo meio cheio”, sintetizou.


Situação e episódio este que nos fazem trazer ao palco dos acontecimentos dois mestres – porque sábios! -. Um, Edgar Morin, quando, em síntese perfeita, nos descreve o ser humano como: ”físico, biológico, antropossociológico”. O outro, Manuel Sérgio: “O ser humano faz-se fazendo-se e, ao fazer-se, joga com os afetos. O que é o homem sem afetos? Ou frio, distante, insensível? Ocorro-me o Fernando Pessoa: “Uma besta sadia, um cadáver adiado que procria”.


Será que Mihajlovic os estaria a “ouvir”?


Como quer que seja, e se a mensagem se dirige particularmente à geração que hoje desponta, importante será que nós, adultos, sem qualquer tipo de demagogia e sem máscara, porque de forma responsável e coerente, sejamos capazes de percorrer o caminho alicerçado em princípios, que não em conveniências, e em valores, em detrimento de proveitos próprios. Que desgraçadamente, vezes quantas, vamos observando cá pelo nosso burgo!


Ponto de ordem a estabelecer: o Desporto nasceu como Ética e, sem Ética, não se justifica a sua prática.


Por tudo isto: A saúde e os afetos!

Humberto Gomes
*”Embaixador para a Ética no Desporto”

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