OPINIÃO

Comunicando desportivamente: As Autarquias e o Desporto: Conhecer para agir

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OPINIÃO | HUMBERTO GOMES

‘Conhecer para agir e agir para transformar’

Quando em 12 de Agosto iniciámos este ciclo de ‘ensaios’ a que, de forma generalizada, intitulámos de As Autarquias e o Desporto, vimo-nos na necessidade de os subdividirmos em sete sub-temas, tal o desafio e a complexidade da tarefa, face aos universos do desporto, sendo que este último:

‘Conhecer para agir e agir para transformar’, nos compromete a enquadrá-lo, enquanto relacionado com o Desporto, apelando para outra vivência que, paredes-meias com a prática do dia a dia, não podemos deixar de designar de Vida. Logo, Desporto e Vida, coexistem e, para transmitirmos algumas ideias/pensamentos, fomos sistematicamente ‘obrigados’ a recorrer ao cérebro. Cérebro que, ainda que de forma limitada, regista o que nos acontece e, como sabemos, a memória não atua como um computador que, com assertiva disponibilidade, grava o que vamos fazendo, ainda assim sujeito a que desapareça com o tempo tudo o que fica registado. Muito, afinal, vai mudando por novas referências, pelos momentos em que expressamos a memória, particularmente a alguém.


Temos vindo a aprender que, hoje por hoje, mostra-nos a ciência que o recordar é quase sempre alterar, na medida em que quando lembramos, temos a tendência de mostrar mais um ou outro aspeto, como que modelando a experiência e transformando-a.


Falar, comunicar, resulta em modelar, reconstruir o sucedido e de alterar (!) a memória, tanto mais que a memória não regista tudo o que acontece, com a agravante de vivermos hoje numa sociedade que nos empurra para, vezes quantas, utilizarmos não tanto a veracidade dos factos, nem a melhoria do conhecimento, antes a nossa sobrevivência!


E neste ‘Conhecer para agir e agir para transformar’, a breves três dias de depositarmos na urna o nosso voto, em obrigação de cidadania, para as eleições autárquicas, que melhor (a nossa) decisão, face à abrangência dos sub-temas que aqui fomos debitando nas páginas do “The Times” do Algarve, do que referenciarmos dois mestres – porque sábios! -, e cada um de nós poder extrair a sua conclusão.

Referimo-nos a Manuel Sérgio, quando, a dado passo, de um seu recente escrito, nos oferece a sua categórica visão: “Quando se dizia e ensinava, na medicina e na educação física, o paradigma científico radicava apenas na fisiologia e se pensava que as leis do mundo físico eram em tudo semelhantes às do mundo social e humano, o conhecimento, como um pêndulo, oscilava entre a física e a matemática e a qualidade, com todo o seu ímpeto de força criadora, ficava esquecida na preparação do atleta. Alguns cientistas preferem, na investigação e até na prática profissional, a quantidade à qualidade, porque aquela pode ser testada, verificada, medida, experimentada, e é de mais fácil manuseio; nesta, descobre-se mais cultura do que técnica, mais arte do que rendimento, mais ludismo do que eficiência, mais criatividade do que repetição, mais sabedoria do que saber, mais sentimento do que razão, um mundo enfim que não se reduz ao quantitativo, ao mensurável, não os dispensando embora”.


E, nesta linha de procedimento, a fechar este sub-tema e a abordagem a este mundo, de certo modo complexo, de As Autarquias e o Desporto, surge-nos outro mestre, José Manuel Constantino que, pelo que fomos evidenciando neste ciclo de ‘ensaios’, em muito nos ajudou – grato, de coração! – no ‘arrumar’ do que pretendíamos transmitir, comunicando desportivamente, ao ponto de nos influenciar para o título deste último escrito: ‘Conhecer para agir e agir para transformar’. Citemo-lo, então: “Sem um adequado planeamento estratégico assente numa visão sistémica e plural dos universos do desporto, corre-se o risco de continuar a assistir à distribuição de recursos financeiros a partir do Estado – central ou local – ao sabor de imediatismos e circunstancialismos, o que face a uma cultura política favorável à exigências dos que têm capacidade reinvindicativa esquece os que dele menos têm: os cidadãos. Enganam-se por isso, os que pensam que as questões que o desenvolvimento do desporto nos tem colocado estão politicamente equacionadas e resolvidas. Não estão e dificilmente o ficarão, na ausência de uma orientação clara que consiga passar das declarações da intenção política para programas de cuja concretização resultem efeitos duradouros sobre os sistemas desportivos locais”.


Reeiterando o privilégio que tivemos na abordagem a esta temática, regressaremos na próxima edição, com uma pergunta suscitada pelo resultado das eleições: “Foram correspondidas as expetativas?”, com a (nossa) natural curiosidade de procurar saber se, de algum modo, terá ficada salvaguardada a (grande) questão de fundo, no Desporto como na Vida: o sucesso, o êxito, não se compra, apenas se merece!

Humberto Gomes

*“Embaixador para a Ética no Desporto”

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