OPINIÃO

Comunicando desportivamente: Orientar a agulha da bússola

OPINIÃO | HUMBERTO GOMES

No dealbar de um Novo Ano, é universal a esperança de que 2021 se possa constituir como um combate com êxito que vença a pandemia assassina e, com ela, o sofrimento, o medo, a verdadeira dimensão da imperfeita natureza humana.


Por isso, a chegada de 2021 se tornou tão ansiada e se vive, nestes primeiros dias, uma falsa sensação de alívio. Terminou, enfim, o ano terrível, mesmo sabendo-se que nos esperam, ainda, meses muito pesados e preocupantes.


Foi com estas palavras que Vitor Serpa, distindo jornalista e diretor do confrade “A Bola”, diário desportivo que, para muitos, se tem revelado como autêntica Bíblia do Desporto, talvez que mais, já em tempos idos, quando o País não sofria do mal endémico de estar (muito) futebolizado, e que representa, afinal, a tara da nossa sociedade.


Razão pela qual, no desporto como na vida, em função do conhecimento que temos vindo a adquirir, ao longo das três vidas: a sentida, a aprendida e a vivida que, implicitamente, dá origem às nossas escolhas e à nossa opinião, respigámos, com  a devida vénia, uns nacos do escrito de mestre Vitor Serpa, inserto na edição do passado dia 2, nesta entrada de 2021:


– Uma questão de honra
2021 não pode deixar de trazer a herança de 2020. Veja-se o caso muito significativo do desporto. Para este ano de 2021 passaram os Jogos Olímpicos de Tóquio, É certo que custarão, no final, a obscena quantia de 20 mil milhões de euros e que a densa população de Tóquio (quase a população inteira de Portugal) acha, em significativa maioria, que os jogos deveriam ter sido cancelados e não se falava mais nisso, até Paris-2024. mas, para o governo japonês e para o Comité Olímpico Internacional, era uma questão de honra. Assim, com ou sem público nas bancadas, mas com direitos telivisivos e as receitas publicitárias assegurados, os Jogos terão o seu início a 23 de Julho.


– Um acontecimento raro
Cá pelo nosso burgo “o mais importante continua a ser o título de campeão nacional, algo que pode tornar-se mais transversal, uma vez que, além dos crónicos candidatos FC Porto e Benfica, se juntam o histórico, mas há muito adiado, Sporting e o renovado e cada vez mais notável SC Braga.
Quatro candidatos à chegada de 2021 é um acontecimento raro. Mais raro, ainda, do que a surpreendente, mas firme liderança do Sporting”.

Um reconhecimento
Morreu Carlos do Carmo. Foi triste a primeira notícia de 2021. Parou de vez um martirizado e enorme coração. Tinha o privilégio de ser seu amigo e admirador. Hoje, os sites, sempre apressados, noticiam a morte do fadista, mas o charmoso era isso e muito mais, um Homem de corpo inteiro, corajoso e frontal. Um artista de dimensão universal. Recordo com muita saudade as longas madrugadas no Faia, quando a malta de A Bola, jornal que ele tanto admirava, recarregava baterias, depois do fecho da edição. O que o Carlos nos aturou.


Foi assim, com a assertividade e eloquência a que, de há muito, nos habituou que Vitor Serpa nos mostrou, sem o pretender, o cartão amarelo. Cartão amarelo, no sentido de se fazerem e dizerem as coisas com verdadeiro conhecimento de causa, diríamos mesmo com sentido ético.


De tal forma que, na fronteira entre o cartão amarelo e o vermelho, deveremos ter presente o legado, que se traduz na ideira/mensagem de mestre – porque sábio! – Stephen Hawking: “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento”.


Por tudo isto, com referências e com memória, enquanto consciência inserida no tempo, estamos em crer que, para não nos constituirmos em navegadores à deriva, seremos, então, capazes, de orientar a agulha da bússola.


Fiquemos com a esperança de que, no desporto como na vida, consigamos interiorizar e praticar que não é pensando que somos, é sendo que pensamos! 

Humberto Gomes
*“Embaixador para a Ética no Desporto”

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