OPINIÃO

Comunicando desportivamente: Valorizar quem investe em nós

desporto
OPINIÃO | HUMBERTO GOMES

Valorizar quem investe em nós para seguirmos os nossos sonhos

É o que nos dá conta Francisca Laia, canoísta, ex-atleta do Sporting e que agora regressou ao seu clube de origem, o Clube Desportivo Os Patos, sediado em Abrantes-Rossio Ao Sul Do Tejo, em boa medida porque falhado o apuramento para os Jogos Olímpicos do Japão, não houve interesse em renovar o contrato com os leões.


Havia que arranjar outro clube e o que mais contou para a canoísta, revela-nos: “Tinha de retribuir e, ao regressar à minha casa, fazia sentido ir para o clube que me deu formação. É o sítio onde cresci e onde me tornei a Francisca pessoa e a Francisca canoísta”. E de, forma convicta e reconhecida: “Temos de dar valor às pessoas que nos acompanharam desde cedo e que investem em nós o seu tempo para seguirmos os nossos sonhos”.


Sonho que passa por dar o seu melhor, tendo como objetivo a presença nos Jogos Olímpicos de Paris/2024, onde: “Vou dar o melhor de mim para poder estar lá”. Como já antes, em dar o seu melhor, sucedia, recorda-nos: “Comecei a praticar canoagem em 2003, com 8 anos. Não sei o que é estar na escola sem a canoagem. Consegui sempre manter o nível. Foi duro, é um facto, mas quando temos um sonho e sabemos para onde queremos ir, as coisas são possíveis.

Houve dias maus. Não fiz aquele treino como devia ter feito porque estava muito cansada. E houve dias em que deixei de estudar para fazer canoagem. Tive de encontrar um equilíbrio e manter o foco. Se temos sonhos são para ser realizados”.

E, curiosidade nossa, nunca pensou em desistir? Que nem uma remada forte, a resposta: “Sou uma pessoa que gosta muito de desafios. Quando entrei na faculdade, em 2012, aceitei o desafio. ‘Ok, toda a gente diz que não é possível tirar medicina e fazer outra coisa?

Vamos lá tentar’. Foi um desafio pessoal e uma meta que tracei. ‘Tu vais ser capaz’. Nunca perdi o foco e fiz tudo o que pude para o conseguir”. E esse tudo, como tem sido: “Essa vida louca durante seis anos era acordar, treinar, almoçar e ir a correr para as aulas das 14h às 20h. Depois voltava a treinar e às vezes, às 22h, ainda ia estudar porque no dia seguinte tinha um exame”.


E, dobrando um pouco a página, rumo a um futuro próximo, Francisca é determinada: “Imagino-me a ser médica. Entrei para a medicina porque podia, mas com 18 anos não sabia bem o que queria. Muitos ainda não sabem o que querem fazer com esta idade. Parece mal dizer isto porque há muita gente que quer muito entrar e não consegue. Vejo-me a ser médica e a ajudar as pessoas numa especialidade que me deixe realizada”. Que bem poderá vir a ser oftalmologia, ginecologia e obstetrícia, são as suas preferências.


Com a plena convicção de que estar na canoagem é um estilo de vida: “Vemos um mundo que quase ninguém vê. Toda a gente vê o rio de fora para dentro, mas poucos vêem de dentro para fora. Ganhei um gosto tal que continuei até hoje”.

Francisca, que tem tido como treinador seu pai, suscitada a pronunciar-se, é uma vez mais segura na sua análise, concretamente no que à relação pai/filha, treinador/atleta diz respeito: “Não é nada fácil. Ainda hoje temos algumas discussões saudáveis porque continuamos a treinar juntos. Ainda há picardias. Ele foi meu treinador e há aquela questão de não poder tratar-me melhor do que os outros. Mas sempre tivemos uma relação saudável. Claro que ele de vez em quando dizia que eu tratava melhor os outros do que a ele, mas faz parte”. E, com os olhos no que mais á frente surgirá: “No futuro vou querer fazer o mesmo com os meus filhos. O meu pai esteve presente em todos os bons e maus momentos. Ele tem uma compreensão muito grande da canoagem. Ainda hoje partilho com ele momentos bonitos. Ele tem quase 60 anos, eu tenho quase 30 – são 27 – e continuamos a treinar juntos”.

Família é como um poste enterrado no fundo da terra
A palavra família define tudo

Próximo do final desta “aventura” com a prazeirenta companhia de Rafael Godinho e do nosso confrade Record, importará muito fechar com chave de ouro numa (grande) alusão à família e da sua importância, por parte desta grande intérprete dos valores que o Desporto nos compromete a praticar: “Os nossos pais são aquele poste bem enterrado no fundo da terra. Pode vir uma tempestade que ele nunca abana. São as pessoas que sabem dos nossos sacrifícios e no momento da prova no final do dia eles vão lá estar para nos abraçar da mesma maneira, independentemente do resultado. Costumo dizer que o meu pai é mais importante nas vitórias, mas a minha mãe é mais importante nas derrotas. Ele tem aquele espírito competitivo, enquanto a mãe é mais terra a terra. Funcionam um bocadinho com o Yin e o Yang e acabam por equilibrar as coisas. São as pessoas mais importantes da minha carreira. A palavra família define tudo”.


Com chave de ouro ou com a cereja no topo do bolo, desfrutámos, com imenso prazer, desta “aventura” com uma desportista e em breve futura médica, esperando não ter defraudado a vossa expetativa, fiel à, já de há muito, linha editorial deste “Times do Algarve”, que Anabela Gradim ajuda a definir: “O maior capital de um jornal, e o único do jornalista, é o seu brand name, uma reputação profissional impoluta, a credibilidade, junto dos leitores e a confiança conquista ao longo dos anos”, que, na circunstância, e em numeração romana, são já LXV!


Ainda, tempo e espaço para chamar ao palco dos acontecimentos – sem ruído nem holofotes acesos -, o nosso príncipe poeta que nos legou: Não é pensando que somos, é sendo que pensamos!

Humberto Gomes

*”Embaixador para a Ética no Desporto”

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